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Saber florir é uma das veredas para a felicidade – Sobre o Novo Acordo Ortográfico

Se a língua é viva, se a língua é do povo, se o povo que a fala e a escreve é democrático, toda mudança, seja por acréscimo, seja por eliminação, deve ser bem-vinda. Tão bem-vinda que neste termo composto permaneceu o hífen, a partir de janeiro de 2016 empregado nos compostos com advérbios bem e mal quando estes formam com o elemento que lhes segue uma unidade sintagmática e semântica, desde que esse elemento comece por vogal ou h. Ora, mas “vinda” começa com v? Sim, “bem”, ao contrário de “mal”, pode não se unir com palavras começadas por consoante, como também acontece em bem-estar, bem-humorado ou bem-visto. Percebemos, portanto, que “bem” precisa de atenção especial no aprendizado e prática da Língua Portuguesa segundo o Novo Acordo Ortográfico, que visa simplificar suas regras ortográficas, assim como aumentar não apenas a interação, mas também o prestígio social desta língua em âmbito internacional.

Este exemplo, somado a outras exceções ortográficas, devidamente justificadas pelos filólogos, gramáticos e linguistas, talvez tenha ofuscado um pouco o brilho desta nova grande conquista da Língua Portuguesa, tendo gerado muitas críticas, oriundas de representantes dos povos dos Estados-Membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) que firmaram o Acordo. Mas era de se esperar que isso ocorresse, afinal, data de 1990 a assinatura do tratado, sendo que antes de se chegar a uma ampla implementação, o Acordo enfrentou inúmeras contestações nas esferas política, econômica e jurídica. Foi um longo caminho percorrido, que no nosso país passou pela gestão de três Governos Federais: Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma.

Consenso público em tema de tamanha complexidade – ainda que não seja tão complexa assim a Língua Portuguesa oral e escrita como parecem sugerir as exceções às novas regras do Acordo Ortográfico – é algo praticamente impossível de se alcançar. Aliás, talvez nem mesmo seja bem-vindo, pois, se a língua é viva, quanto mais debates em torno de sua aplicação, nas mais diversas circunstâncias e contextos, mais rica ela se tornará, mais paixões ela provocará, mais empoderada ela será nos meios sociais, tanto pelos usuários que a dominam como língua materna, quanto por aqueles que dela fazem uso voluntariamente após processo de ensino-aprendizado formal.

Quando refletimos sobre o lado positivo do Novo Acordo Ortográfico, nosso primeiro foco de observação está na aproximação do cidadão comum com a língua escrita, visto que a simplificação ortográfica tem justamente como objetivo diminuir as distâncias entre a língua falada e a língua escrita, considerando-se como maiores beneficiários desse processo os cidadãos que fazem uso da língua falada popular, aquela que ganha e perde novos elementos diariamente de acordo com a própria dinâmica do viver numa sociedade capitalista, na qual a estratificação social por nivelamento econômico e cultural é uma dura realidade. Este é justamente um dos pontos salientandos em defesa do Acordo pelo professor Evanildo Bechara, gramático, filólogo, membro da Academia Brasileira de Letras e coordenador da comissão de lexicologia e lexicografia da instituição.

O professor Bechara também ressalta uma vantagem inegável que favorece globalmente os usuários da Língua Portuguesa, em todos os países da CPLP e de todas as faixas de idade: a possibilidade dos textos produzidos internacionalmente, em Português, apresentarem conteúdo uniforme para compreensão e interpretação generalizada. Nesse caso, devemos pensar em papers e documentos elaborados em Português pela ONU, por exemplo, bem como nas obras de entretenimento e literatura produzidos por editoras e no uso da língua pelas redes sociais e demais plataformas de comunicação e trabalho no universo digital. Afirma o professor Bechara (BECHARA, 2016):

É claro que o francês que se fala na Bélgica não é o mesmo francês que se fala na França, mas apesar das diferenças pontuais entre o francês da Bélgica e o francês da França, a ortografia francesa abarca as produções escritas dos dois países. Agora, porque há diferenças também entre o português de Portugal e o português do Brasil, nós vamos ter duas ortografias?! O espanhol falado na Argentina e o espanhol falado na Espanha são muito diferentes, mas na hora de escrever, tanto os argentinos quanto os madrilenos escrevem da mesma maneira. De modo que eles não são mais inteligentes do que nós, brasileiros e portugueses, nós devemos aproveitar esses exemplos que estão aí diante dos nossos olhos, ao alcance da nossa inteligência.

Há ainda a análise reflexiva sobre as boas qualidades do Acordo Ortográfico que podemos fazer sobre a perspectiva da integração e desenvolvimento dos potenciais econômicos das nações da CPLP, decorrentes da ampliação das bases de diversidade cultural, centrando-nos nas vantagens competitivas que passam a ser oferecidas aos estudantes, desde o Ensino Básico até os anos de extensão universitária. Na dimensão socioeconômica, também identificamos benefícios proporcionados aos jovens ingressantes nos mercados de trabalho em dinâmica de intercâmbio entre as nações. Miguel Gil (GIL, 2015), membro do Conselho de Administração do grupo Media Capital, um dos mais importantes de Portugual, justifica:

A existência de um espaço comum para a língua portuguesa é absolutamente chave para a otimização das oportunidades e o aproveitamento cultural, social e econômico possibilitados por uma língua moderna, culta, viva e falada por quase 300 milhões de pessoas, das quais mais de 200 milhões estão no Brasil. Obviamente, Portugal é o primeiro país interessado nisto, e o Brasil é o principal país para a natural expansão e crescimento das atividades das empresas de mídia portuguesas.

Obviamente, o Novo Acordo Ortográfico exige novos esforços de educadores da Língua Portuguesa que, a partir de 2016, têm a obrigação de intensificar seus programas de reciclagem para atualização de saberes. O mesmo acontece com estudantes brasileiros desde o Ensino Fundamental: novos esforços dirigidos às alterações introduzidas na ortografia da língua. Todavia, se atentarmos para o fato de que os Parâmetros Curriculares Nacionais para a LP transmitem orientações para que, em salas de aula, a língua falada não seja preterida em face da língua escrita, muito pelo contrário, podemos concluir que os esforços são conjuntos, de toda Nação, para que o processo de ensino-aprendizado unifique os saberes acadêmicos com os saberes dos cidadãos, frutos das relações sociointeracionistas sob perspectiva construtivista, visando o exercício pleno da cidadania, o que inclui a conscientização para extinção de comportamentos discriminatórios. Por isso, para finalizar, recordo versos de Alberto Careiro, heterônimo de Fernando Pessoa, extraídos do poema XXXVI de O Guardador de Rebanhos:

E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!…

Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!…
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

 

Referências bibliográficas

BECHARA, Evanildo. In: “Filólogo Evanildo Bechara defende acordo ortográfico – Entenda mudanças”. São Paulo: WSCOM, reportagem de Paula Dantas, publicada em 03/10/2016. http://www.wscom.com.br/mobile/noticias/brasil/filologo+evanildo+bechara+defende+acordo+ortografico+entenda+mudancas-195948. Acesso em 22/03/2017.

ELIAS, Vanda Maria (org.). Ensino da língua portuguesa: oralidade, escrita e leitura. São Paulo: Contexto, 2011.

GIL, Miguel. In: “Imposição do Brasil ou língua do futuro? Acordo ortográfico divide Portugal”. Lisboa: BBC, reportagem de Mamede Filho, publicada em 15/10/2015. http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151007_acordo_ortografico_polemica_mf . Acesso em 22/03/2017.

MENEGHEL, Andrea. Oficina de Comunicação e Expressão – Módulo 4 – Acordo Ortográfico: Principais mudanças. São Paulo: Centro Universitário Senac, 2017.

CAEIRO, Alberto. O Guardador de Rebanhos – Poema XXXVI. In: PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 222.

TUFANO, Douglas. MichaelisGuia Prático da Nova Ortografia. São Paulo: Melhoramentos, 2008.

 

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