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O contexto político da literatura infantil no Brasil do século XX

Responsável pela formação de leitores, a escola sempre foi uma instituição de grande poder de influência sobre a expansão da literatura infantil no Brasil. Desde a implantação da República, a nação se empenhou na produção de obras literárias que promovessem o interesse pela história da sociedade brasileira, resgatando, por exemplo, movimentos ufanistas que apoiaram a independência e o desbravamento dos bandeirantes em regiões nas quais o meio ambiente servia às comunidades indíginas. Essa temática, permeada pela exaltação à natureza – fauna e flora – esteve presente tanto entre escritores do Romantismo, dentre os quais José de Alencar é um dos maiores exemplos, como entre os escritores de obras nacionais dedicadas às crianças brasileiras em idade escolar.

Na década de 1920, porém, quando vivíamos o período pós-primeira guerra mundial, o Modernismo explode com vigor, trazendo com ele os movimentos Expressionistas e Futuristas, consequentemente, inspirando uma estética de vanguarda, no bojo da qual emergem críticas sociais, já não mais colocando em destaque figuras do heroísmo nacional, como os bandeirantes, sem atentar para figuras em papéis de dominados, como os índios, pois a sociedade começava a rever conceitos, inclusive em relação à formação de cidadãos, o que instigava reflexões sobre a educação infantil e as relações tradicionais de poder em família – os pais eram autoridade máxima diante dos filhos nessa época, relação que se reproduzia nas escolas entre professores e alunos. Ao repensar o ensino infantil no Brasil, alguns escritores se posicionaram publicamente, comprometidos com a formação de novos leitores e se dedicando ao aprimoramento estético da produção literária, como destaca ZILBERMAN (pp. 131-133).

Érico Veríssimo, sob o pseudônimo de Nanquinote, publicou Meu ABC em 1936, obra ilustrada por E. Zeuner (1895-1967). A cada letra do alfabeto destina-se uma página, acompanhada do desenho a cores, que colabora para o entendimento do texto. […] Em 1937, Cecília Meireles (1901-1964) e Josué de Castro (1908-1973) publicam A festa das letras5, obra ilustrada por João Fahrion (1898-1970). O livro mescla a cartilha ao ensino de “preceitos de hygiene alimentar; indispensáveis à sua [do leitor] vida”, conforme declaram os autores. […] À narrativa, os autores preferem a poesia, recorrendo a estrofes paralelas e a versos rimados. A rima facilita a memorização e introduz o elemento lúdico, apoiado pela ilustração. 5 MEIRELLES, Cecília; CASTRO, Josué de. A festa das letras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.

Anticonvencional, foi justamente na década de 1920 que Monteiro Lobato, já reconhecido como intelectual e homem de Letras no Brasil, ganhou fama como crítico ácido, do tipo que não deixava de dizer o que pensava, e acabou impulsionando a Semana de Arte Moderna, em 1922. Indignados com uma crítica feita por ele a uma exposição de Anita Malfati, artistas brasileiros deixaram sua zona de conforto para também exporem suas ideias com mais ousadia, organizando então a Semana de Arte Moderna – nos nove fora, o que todos eles queriam, inclusive Lobato, era defender a produção artística de autonomia brasileira, num momento muito oportuno da história de uma nação que nasceu como colônia e almejava, além da independência financeira mundialmente, a liberdade de expressão cultural e artística. Mas Lucia, nossa querida Narizinho Arrebitado, já havia dado o ar da graça em dezembro de 1920, quando Lobato publicou, pela primeira vez, uma obra para crianças, intitulada Negrinha e a Menina do Nariz Arrebitado. No ano seguinte, o livro começou a ser distribuído gratuitamente nas escolas, marcando o início da sistematização da literatura infantil no Brasil, seguida de inúmeros outros sucessos do mesmo autor, cuja grande demanda exigiu importações de equipamentos dos Estados Unidos e da Europa para aumentar seu parque gráfico.

Nacionalista convicto, Lobato fez muitas traduções, mas não apreciava traduzir obras européias para as crianças brasileiras. Em seus livros infantis, os temas englobam mitologia grega, matemática, história, ciências naturais, geografia, entretanto, a cultura brasileira é a base de suas composições, inclusive com destaque para costumes regionais e lendas folclóricas. Não é difícil, consequentemente, da posição que o distanciamento histórico nos permite, compreender o porquê da elaboração de sua crítica a Anita Malfati, que lhe rendeu a pecha de “reacionário”, mas rendeu ao Brasil a Semana de Arte Moderna. Tudo indica que Lobato estava cansado da solidão na defesa das artes e da cultura brasileiras, tendo enxergando no fervilhar de uma boa polêmica um caminho para tomada de posições. E mesmo assim foi à casa de detenção por críticas ao Estado Novo de Getúlio Vargas, sem deixar de ter ânimo para mais tarde ainda cunhar a frase “O petroleo é nosso”. Um parêntese: alfabetização não é mesmo letramento; e nem letramento é sinônimo de leitor de compreensão plena, seja este leitor criança ou adulto. Do contrário, saberíamos ontem e melhor ainda hoje quem realmente foi Monteiro Lobato sob sua fina e genial ironia. Se para crianças, como disse este mestre, “um livro é todo um mundo”, para os adultos um mundo não o é sem livros.

A produção literária torna-se ainda mais intensa no Brasil na década de 1950, após a ditadura de Getúlio Vargas e acompanhando os ideais de Juscelino Kubistchek, cujo Plano de Metas “50 anos em 5” difundiu pela nação sentimentos de patriotismo e confiança no futuro. Era o início dos “anos dourados”, que também colocaram em ascendência o movimento concretista. A realidade econômica era favorável, embora o termômetro cultural estivesse concentrado nos espaços urbanos. O ambiente tornou-se, nessa época, propício para popularizar a literatura, justificando o surgimento de novos autores de sucesso e o consumo de best-sellers estrangeiros.

Percebe-se, por essa rápida linha do tempo, que a expansão da literatura no Brasil sempre esteve atrelada aos interesses econômicos – da colônica nos remotos tempos dos jesuítas; da República, entre as últimas décadas do século XIX e início do XX; da burguesia, a partir da aceleração da industrialização da nação na primeira metade do século XX. É notório também que a literatura popular e sua difusão, com apoio das instituições de ensino, serviu de instrumento manipulador, dentre outras estratégias, para que a burguesia chegasse ao poder no Brasil. Há, portanto, um misto de decisões advindas de uma política cultural e educacional a serviço de interesses econômicos e da tomada do poder político na base que fundamenta a expansão da literatura no nosso país.

A escola popular – pública e gratuita – foi um dos segmentos sociais que facultou a expansão da leitura e da produção literária ao longo de todo o século XX, principalmente na década de 1950 e início dos anos 1960, tendo a democracia como seu alicerce, todavia, conforme já assinalamos, sem deixar de servir a grupos dominantes no âmbito da política e da economia. O mesmo se deu com o emergir da rede privada de ensino, esta alicerçada por diretrizes de elitização do ensino brasileiro.

O processo econômico dominado pela ditadura militar que se seguiu, sob a bandeira da “caça aos comunistas”, foi mais um momento histórico que atesta as intrínsecas relações entre a expansão da literature no nosso país e os interesses das classes dominantes, pois, sob forte censura, muitos autores ou deixaram de produzir, ou o faziam em composições subliminares, valendo-se de discursos metafóricos, enquanto a literatura infantil, embora já não apresentasse compromisso com a história oficial (heróis e ufanismo), também não evocava quebras com os valores tradicionais em vigor, isto é, não se lançava a temas mais libertadores, o que vimos voltar a acontecer somente nas décadas de 1970 e 1980.

O transgredir de normas e rupturas, sob enfoque de combate à repressão infantil, é uma das maiores contribuições da literatura infantil decorrente das produções iniciadas nas décadas de 1970 e 1980. Sem desmerecimento aos clássicos europeus essenciais à formação dos jovens pelo papel pedagógico que exercem, as obras escritas por autores brasileiros a partir da abertura democrática que tem início com o fim da ditadura militar demonstram talento sociocultural e estético para representar as crianças, gerando autoreflexões e promovendo um diálogo pautado pelo respeito mútuo e pela troca de idéias entre adultos e crianças, em superação aos modelos de comportamento tradicionais que herdamos desde os jesuítas, nos quais os adultos exerciam sempre papel de dominação sobre as crianças. LAJOLO e ZILBERMAN (p. 160) salientam:

Após ter conquistado a duras penas o direito de falar com realismo e sem retoques da realidade histórica, e ao mesmo tempo que redescobre as fontes do fantástico e do imaginário, a literatura infantil contempla-se a si mesma em seus textos.

Em síntese: a literatura infantil contemporânea no Brasil evoca pelo “brincar” lendo, além da solidariedade, do amor à natureza, do humanismo e do exercício da cidadania desde a tenra infância, um conteúdo de caráter também pedagógico rico em recursos para discussões e reflexões em família, em espaços de socialização e em salas de aula de escolas sob gestão democrática, compromissadas com a formação de cidadãos.

Referências bibliográficas

ZILBERMAN, Regina. A leitura e o ensino de literatura. Curitiba: Intersaberes, 2012.

LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira: histórias e histórias. São Paulo: Ática, 6ª ed, 2007.

LUCLKTENBERG, Isabel Maria Barreiros; GRILLO, Patrícia Franco. Aulas 01 a 04. Senac: São Paulo, 2016.

 

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