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Campos da didática – Reflexões

De origem grega, o significado da palavra didática é ensinar ou instruir. Todavia, ao longo da história, com a evolução dos conhecimentos humanos, este significado tornou-se mais abrangente. Com a publicação da Didática Magna por João Amós Comênio (1592-1670), a concepção de didática se desenvolveu e passou a ser compreendida como a arte de ensinar tudo a todos. Novos avanços apresentaram-se como essenciais para a evolução da concepção de didática sob as teorias de Rousseau (1712-1778), quando tendências pedagógicas de caráter liberal e progressista estimularam o debate sobre a educação entre intelectuais a serviço do capitalismo, os quais defendiam o incentivo da competição e do individualismo, e pensadores alinhados com pressupostos crítico-sociais, para os quais a didática deveria se apresentar como libertadora no exercício da formação de indivíduos.

Os progressistas abriram caminho para a concepção da didática pautada pela ambientalismo, segundo a qual educar é adaptar o indivíduo ao meio social, e, em seguida, para as teorias fundamentadas pelo interacionismo e o construtivismo, as quais apregoam que o ser biológico é condicionado pelo seu meio social, consequentemente, o cidadão passou a ser visto como fruto de suas relações sociais, não podendo, portanto, a didática, em seus pressupostos de prática pedagógica, deixar de se preocupar com o papel ativo do sujeito em seu processo educativo, com especial atenção concedida, nesse quesito, aos anos escolares iniciais, tendo a ludicidade como direito da infância inclusive para além dos 6 anos.

No Brasil, a primeira escola foi criada em 1549, com a chegada dos padres jesuítas que, entre outras atribuições, respondiam pelo ensino das primeiras letras aos nativos e residentes na colônia portuguesa. O aprimoramento do ensino entre 1549 e 1759 teve como finalidade instruir a elite colonial masculina, preparando-a para cargos públicos e atividades políticas. Somente com a saída dos jesuítas do Brasil o ensino mudou de foco, constituindo-se, sob a administração do Marquês de Pombal, as escolas laicas, nas quais a educação era marcada pelo enciclopedismo, englobando ciências e disciplinas isoladas. As elites continuaram a ser privilegiadas após a vinda da Família Real para o nosso país, visto que a educação mantinha compromissos com as preocupações econômicas de Portugal. Esse panorama começou a se modificar com a Independência do Brasil – já com a Constituição de 1824, institucionalizou-se a instrução primária como “gratuita para todos os cidadãos”, embora às meninas coubesse ainda o ensino de atividades domésticas no lugar das disciplinas de matemática e geografia.

O processo de industrialização e a necessidade de mão de obra qualificada acentuaram os avanços da área educacional, tornando a escola obrigatória, o que nos permite concluir que, no Brasil, a escola nasceu praticamente junto com as fábricas. Ao longo do processo de desenvolvimento do capitalismo nacional, o aluno foi deixando de ser um sujeito passivo na sala de aula para se transformar num sujeito ativo. A legislação dos campos da educação caminhou pari passu com as prerrogativas de desenvolvimento social e econômico, começando pela regulamentação do Ensino Primário. Atualmente, os ciclos obrigatórios compreendem a Educação Básica (Ensino Infantil), o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, tendo sob esse escopo os cidadãos brasileiros dos 4 aos 17 anos de idade.

Na educação escolar, o aluno precisa do professor como mediador dos conhecimentos práticos (construídos conjuntamente) e dos conhecimentos historicamente construídos, os quais denominamos conhecimentos científicos. Por sua vez, os professores não podem prescindir, para exercer esse papel de mediador, do arcabouço formado pelos pressupostos da prática pedagógica, isto é, da didática.

Da Escola Nova (décadas de 1920 e 1930) ao período da Ditadura Militar, muito se ganhou e muito se perdeu, no Brasil, no que concerne às concepções da didática e à praxis do ensino. É importante ressaltar, entretanto, que a partir do final da década de 1970, a didática passou a ter compromissos explícitos com os cursos de formação de professores em nosso país, com o intuito de apontar o conteúdo ideológico da educação básica, fase na qual o discurso sócio-histórico prevaleceu sobre o discurso da divisão técnica-educacional, gerando o “pessaimismo pedagógico”, fruto das revisões didáticas empreendidas na década de 1980. Sob esse norte de investigação e desejo de mudança da realidade, a nação brasileira entrou na década de 1990, justamente em meio ao boom da globalização mundial, em luta por uma concepção crítica da educação que mire a sociedade do conhecimento (estruturada sobre o tripe informação, comunicação e conexão dos cidadãos em rede). Novas práticas pedagógicas surgiram e continuam surgindo como fruto desse trabalho contínuo, com o qual estão envolvidos diversos setores da sociedade, e não somente os especialistas em educação.

Dimensões como tempo e espaço nas práticas pedagógicas do século XXI são foco de atenção crucial, pois sabemos que um planejamento escolar que não se dedique à análise e às possibilidades reais do cruzamento dessas duas dimensões pode levar ao fracasso um plano politico-pedagógico. Não se limitam, porém, a essas duas dimensões as dificuldades e desafios da didática.

Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, por exemplo, do ponto de vista do aluno, há dificuldades e desafios de muitos gêneros a serem enfrentados pelos educadores – neurológicas, psicológicas, sociais, culturais. Do ponto de vista das práticas pedagógicas, destacam-se, dentre outras considerações importantíssimas, as relações com familiares e os diagnósticos das comunidades às quais pertencem os alunos, base de conhecimento que não pode faltar, no EF, aos professores e demais profissionais da escola envolvidos no processo de ensino-aprendizado.

Existem ainda outros aspectos identificados como desafiadores no ensino em situações escolares, como, por exemplo, o conjunto de problemas chamado “questões de ensino”, que envolvem: “os agentes do ensino e da aprendizagem (professores e alunos), a relação pedagógica no sentido mais amplo, os problemas da disciplina e da indisciplina, as dificuldades ligadas à avaliação dos resultados da aprendizagem”. (CORDEIRO, 2009, p. 33).

Referências bibliográficas

AÇAFRÃO, Rosemeiri Gonçalves e BARBOZA, Andressa Cristina Coutinho. Aulas 01 a 06 – Didática e Prática Docente no Ensino Fundamental. São Paulo: Senac, 2016.

CORDEIRO, J. Didática. São Paulo: Contexto, 2009.

SALLES, EMEF Campos. Projeto Político Pedagógico Cidadania: uma questão de sobreviência – 2016. São Paulo, 2016.

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