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A bailarina que virou pianista

By Gisele Centenaro

Mastermind: Tamires Monteiro

1 – Introdução

O objetivo deste ensaio é apresentar uma autoanálise biopsicossocial da fase da minha infância centrada no período dos 7 aos 8 anos de idade, vivido de 1967 a 1968, em zona urbana da cidade de São Paulo, matriculada e frequentando regularmente o primeiro ano do denominado então Primário (já tendo cursado o Pré-Primário) em escola pública da rede estadual de Ensino e residindo com minha família em casa própria (pai, mãe e um irmão 3 anos mais novo que eu). Esta análise está fundamentada em teorias sobre o constructo biopsicossocial erigidas por Piaget e Vygotsky.

2 – Fatores biológicos, psicológicos e sociais

Crianças se desenvolvem em função do meio social e cultural em que vivem, sendo também influenciadas por sua genética, as quais determinam seus potenciais de aprendizagem, havendo também influências, nesse processo, de fatores psicológicos. Devemos considerar, portanto, os fatores biológicos, os fatores psicológicos e os fatores sociais quando voltamos nosso olhar para o desenvolvimento infantil.

Biologicamente, sou descendente de italianos por parte dos meus bisavós tanto paternos como maternos e de brasileiros por parte dos meus avós e pais. Nasci de parto normal, quando minha mãe já atingira os 30 anos de idade, sem apresentar qualquer problemas de origem física e cognitiva.

Aos 7 anos de idade, eu era uma garota ágil, de peso adequado e inteligente, mas também muito tímida porque por volta dos 4 anos passei por uma crise de estrabismo (patologia oftalmológica que consiste no desalinhamento dos olhos). O surgimento dessa patologia pode ter sido consequência de uma anomalia física ou abalo psicológico, todavia, meu tratamento iniciado de imediato buscou somente a correção do problema, e não a análise de sua causa. Sem realizar cirurgia, pois não houve no meu caso recomendação médica para uma intervenção nos olhos desse porte, comecei a usar óculos de grau alto com tampões, ora sobre uma vista, ora sobre outra, além de fazer exercícios laboratoriais para a correção dos desvios. Assim sendo, aos 7 anos os tampões não eram mais necessários, porém, os óculos deviam ser usados diariamente e ainda com alto grau nas lentes, o que o transformava num objeto, segundo minha avaliação, muito necessário para mim, por me permitir enxergar e ler com clareza, mas ao mesmo tempo mal querido devido o aspecto causado ao meu rosto. Obviamente, foram incontáveis as situações nas quais, tanto na escola, como com os amigos da vizinhança (eu morava num sobrado com direito a brincar na rua), fui submetida a chacotas de crianças que, na hora das discussões infantils, me denominavam “quatro olhos”, um “verdadeiro palavrão” sob meu ponto de vista.

Sem retornarmos cronologicamente para avaliar meu desenvolvimento psicológico, vamos nos centrar na faixa dos 7 aos 8 anos, na qual o estrabismo e o uso do óculos me faziam “diferente”, sendo que nem sempre essa diferença era vista pelos demais somente como uma diversidade comportamental e cultural do meu jeito de ser, principalmente em razão das lentes dos óculos serem muito grossas (feias) por causa do alto grau. Lembro-me perfeitamente que, psicologicamente, sempre fui fortalecida pela atitude dos meus pais e até do meu pequenino irmão: eu era bem resolvida quanto à questão de gênero (não tinha vergonha de jogar futebol com meninos e também amava brincar de bonecas); tinha boas notas na escola porque gostava de estudar (sendo muito incentivada na leitura pelo meu pai que me alfabetizou em casa em razão da dificuldade do estrabismos, mesmo antes de eu ingressar no primeiro ano do Primário); tinha amigos do sexo feminino e masculino, de todas as classes sociais, sem fazer distinção entre eles, assim como não fazia distinção entre meus primos da mesma faixa etária, alguns mais ricos, outros mais pobres (atitude estimulada pela minha segunda professora, Dona Elza – a primeira, no Pré-Primário, se chavama Maria Helena –, assim como pelos meus pais e avós); tinha excelente relação com os adultos, sem problemas para seguir regras na escola e no lar; não gostava muito, mas auxiliava minha mãe nas atividades domésticas sem me deprimir; tinha boa autoestima, exceto nos momentos nos quais os óculos ganhavam papel de protagonismo nas relações com as demais crianças, o que me fazia, por isso, mais tímida do que o normal na tomada de iniciativas de aproximação, provavelmente como atitude de defesa, às vezes até antecipada.

Socialmente, convivia com crianças de um bairro de classe média, tanto na escola como nas proximidades da residência; frequentávamos um clube esportivo de classe média, onde aprendi a nadar ensinada pelo meu pai e, também, a interagir socialmente com pessoas mais parecidas ou diferentes de nós (da minha família); frequentava igrejas do bairro, sem grande assiduidade, na companhia da minha mãe, recebendo dela orientação religiosa católica; viajávamos para pontos turísticos do Estado de São Paulo regularmente (praia e campo), aguçando o gosto pelo novo e pelas aventuras em família; frequentava assiduamente a escola pública em dias de aula e festividades; recebia bagagem cultural na área de música e literatura advinda do meu pai, em saraus em casa somente em família; compartilhávamos datas festivas com demais membros da família, que era grande tanto por parte da minha mãe como do meu pai, visitando regularmente avós, tios e tias – foi em família que também aprendi a ter contato com pessoas mais ricas financeiramente, sempre orientada pelos meus pais a não invejar “as coisas” do próximo e a dar valor ao amor fraterno, às relações de amizade, ao bem-estar e à segurança em família. Mas, aos 7anos eu invejei uma “coisa”: ser bailarina clássica de sucesso, como minha tia Aladia Centenaro, que foi coreógrafa do corpo de bailarinos do Teatro Municiapal e, posteriormente, de corpo de bailarinos de dança moderna nas TVs Tupi e Record. Como uma “quatro olhos” poderia ser bailarina?

2 – Pensamento pós-operatório

Dos 7 aos 8 anos de idade, vivia eu o início da fase pós-operatória identificada por Piaget, na qual busvava a conquista definitiva do pensamento lógico. Meu conhecimento, nessa faixa etária, era fruto, em parelha com as teorias de Vygotsky, da minha interação com o meu meio social, descrito acima, e mediado pela cultura adquirida na escola, no seio familiar e no acesso parcial autorizado pelo meu pai aos meios de comunicação (televisão, rádio e gibis eram acessados sob total controle dele que, em compensação, nos facultava – a mim e ao meu irmão – idas ao cinema, na companhia dele e da minha mãe, para assistirmos aos clássicos de Walt Disney e a outros filmes apropriados à nossa idade, além de leituras bibílicas e de histórias de aventura, contos de fada principalmente, feitas por ele em casa, em determinadas noites da semana reservadas para essas atividades culturais). Eis porque não senti, nesse período, muita dificuldade para adquirir compreensão não somente de conceitos espontâneos alicerçados no cotidiano, mas também de conceitos abstratos, seja pelos processos formais de aprendizagem na escola, seja por meio de processos de interação com os meios de comunicação.

Na escola, como já dito, tinha boas notas tanto nas “matérias”, disciplinas divididas em humanas, biológicas e exatas, como no comportamento, pois sabia respeitar colegas, professores e funcionários – confesso que minhas notas de comportamento eram boas mais por temer à disciplina imposta pelos meus pais do que por consciência social, mas, afinal, eu tinha somente 7 anos. Creio, portanto, que meu desenvolvimento cognitivo e moral transcorreu, nessa faixa, dentro de padrões considerados normais por Piaget e Vygotsky, com ganho paulatino de autonomia, enfatizando-se o fato de que eu valorizava, já nessa idade, os vínculos sociais e os prazeres por eles proporcionados, mesmo que temesse o bullying em razão do estrabismo.

3 – Desenvolvimento afetivo e leitura do mundo

Passei por percalços no desenvolvimento afetivo dos 7 aos 8 anos justamente porque, em certas circustâncias, sentia com grande vigor raiva ou amor em consequência dos momentos que era rejeitada ou superinclusa por outras crianças em face do estrabismo e do uso obrigatório dos óculos “fundo de garrafa”. Não tinha problemas afetivos nos relacionamentos com adultos – amava meus avós contadores de histórias, por exemplo –, mas me sentia muito frustrada quando numa brincadeira de rua acaba sendo ofendida pela alcunha de “quatro olhos”.

Todavia, as atividades mediadas pela professora e pelos meus pais contribuíram para equilibrar meus sentimentos e não prejudicar minha autoestima enquanto eu aprendia a fazer minha leitura do mundo e progredir no meu processo de alfabetização. Tenho isso bem claro em minha mente. A literatura infantil e os filmes de cinema fizeram sua parte nesse momento – eu ainda estava dando meus primeiros passoas na leitura, mas meu pai lia as histórias em voz alta, comparando-me às princesas dos contos de fada positivamente.

Nunca me esquecerei, porém, do dia que me enchi de coragem para pedir ao meu pai que me matriculasse no balé e recebi um grande não como resposta. E nunca me esquecerei da justificativa que ele me deu (julgo que ele agiu errado na resposta até hoje): meu pai me disse que jamais eu seria uma grande bailarina pelo fato de eu ter de usar óculos, sendo que os médicos o informaram que eles seriam necessários, sem podermos recorrer às lentes de contato, até os 18 anos. Na verdade, como descobri muito depois, ele jamais quis que eu “chegasse perto” do balé porque a vida familiar da minha tia costumava ser abalada em razão dos seus compromissos profissionais. Ele não queria que acontecesse o mesmo na minha vida. No lugar do balé, proporcionou-me aulas de piano, aceitas não de muito bom grado por mim, de início, mas como alternativa pela ausência do balé na minha vida. Ler partituras, para quem usa óculos de lentes com grau alto, é facilzinho, facilzinho… E piano sempre pude tocar em casa, com meu pai sentadinho na poltrona, a me observar na segunraça do lar.

4 – Conclusão

Propiciar condições adequadas para o desenvolvimento infantil, em todas as faixas etárias, considerando-se os estudos e investigacões de Piaget e Vygotsky, é dever do Estado, é dever da escola, é dever da família, é dever do meio social formado pelos cidadãos no qual as crianças estão inclusas. O desenvolvimento infantil é resultado de construções sucessivas que se integram progressivamente, cada uma das quais em prolongamento das anteriores, sob o ponderar das fases de assimilação e acomodação, conforme demonstrado na minha autoanálise, com ênfase na questão do estrabismo e na aceitação das lições de piano em vez das aulas de balé, sem prejuízo da autoestima, ainda que a recordação seja indelével – a negativa do meu pai se fez acompanhar da segurança pela manifestação de amor que ele tinha por mim ao me proporcionar, como relatei, o curso de piano.

O exemplo também assevera que um professor, como a Dona Elza, minha professora de primeiro ano Primário, tem de ter visão do aluno enquanto ser único, dotado de um processo particular de desenvolvimento para, assim, descobrir como transformar o potencial dele (Zona de Desenvolvimento Proximal, segundo Vygostky) em desenvolvimento real.

Referências bibliográficas

DEUS, Vanessa Felipe de; FERREIRA, Dulce Azevedo; HAHN, Ana Rita Oliveira; LANARIN. Cassandra Victória. O Bilinguismo aplicado à educação especial de surdos. http://www.ufrgs.br/psicoeduc/wiki/O_BILINGUISMO_APLICADO_À_EDUCAÇÃO_ESPECIAL_DE_SURDOS. Acesso em 04/04/2016.

OLAH, Lilian Vania de Abreu Silva; OLAH; Naiane Caroline Silva; SILVA, Eduardo Pereira; SILVA, Fábio de Sá. Libras. Aulas 01 a 04. Curso de Licenciatura em Pedagogia EAD. São Paulo: Centro Universitário Senac SP.

FOLQUITO, Camila Tarif Ferreira. Bases Contemporâneas da Aprendizagem na Infância. Aulas 01 a 08. Curso de Licencaitura em Pedagogia EAD. São Paulo: Centro Universitário Senac SP.

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