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Visões míticas na poética de Sophia de Mello Breyner Andresen e o Efeito Cassandra em Discursos Midiáticos

 MYTHICAL VISIONS IN SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN LYRIC POETRY AND THE CASSANDRA EFFECT IN THE MEDIA DISCOURSES

 Gisele Centenaro

Centro Universitário Senac

São Paulo – SP

RESUMO: Este artigo apresenta um estudo do divino mítico feminino na poesia lírica de Sophia de Mello Breyner Andresen e na poesia épica de Homero, induzindo reflexões sobre o caráter pedagógico dos mitos e sobre a cultura do sacrifício feminino da antiguidade clássica grega à contemporaneidade, concentrando-se no mito de Cassandra e nos efeitos que ele exerce nas sociedades brasileira e norte-americana por meio de discursos midiáticos. Teorias de pensadores como Bakthin, Barthes, Cassirer, Campbell, Eliade, Jaeger e Harari fundamentaram o desenvolvimento deste trabalho científico, que, para além da literatura, identifica criticamente a construção e a desconstrução de mitos femininos no campo da política baseado em textos publicados em jornais e revistas sobre Dilma Rousseff e Hillary Clinton. Os resultados das análises temáticas, formais e estruturais dos discursos poéticos e midiáticos investigados sinalizam a importância de se intensificar os debates democráticos sobre conservadorismo e questões de gênero, bem como sobre a orientação masculina ainda fortemente enraizada nos sistemas educativos e de comunicação da sociedade brasileira do século XXI.

PALAVRAS-CHAVE: Sophia de Mello Breyner Andresen; Cassandra; Dilma Rousseff; Hillary Clinton; mitos femininos; discursos midiáticos. 

ABSTRACT: This paper presents a study of the feminine mythical divine in Sophia de Mello Breyner Andresen’s lyric poetry and in Homer’s epic poetry, inducing reflections about the pedagogical character of the myths and about the culture of female sacrifice from classical Greek antiquity to contemporaneity, focusing the myth of Cassandra and the effects that this myth exerts in Brazilian and American societies through media discourses. Theories of thinkers such as Bakthin, Barthes, Cassirer, Campbell, Eliade, Jaeger and Harari substantiated the development of this scientific work, which, in addition to literature, critically identifies the construction and the deconstruction of feminine myths in the field of politics based on texts published in newspapers and magazines about Dilma Rousseff and Hillary Clinton. The results of the thematic, formal and structural analyzes of the literary and media discourses investigated signaled the importance of intensifying democratic debates about conservatism and gender issues, as well as about the masculine orientation still strongly rooted in the education and communication systems of Brazilian society of the 21st century.

KEYWORDS: Sophia de Mello Breyner Andresen; Cassandra; Dilma Rousseff; Hillary Clinton; feminine myths; media discourses.

  1. INTRODUÇÃO

O tema de investigação e análise deste artigo concentra-se não somente na presença de mitos femininos na poesia épica de Homero e na poesia lírica de Sophia de Mello Breyner Andresen, mas também na forma de transposição de narrativas mitológicas para discursos midiáticos contemporâneos que tem a finalidade de influenciar comportamentos sociais pelo espelhamento entre indivíduos transformados em mitos na atualidade e figuras mitológicas da antiguidade clássica grega, em ambos os casos pela propagação de juízo de valor no que concerne a comportamentos exemplares e reprováveis.

Para atingir esse objetivo, foram buscados, primeiramente, pressupostos teóricos sobre o conceito de intertextualidade sob enfoque de caráter didático-explícito, como posto na definição de Barthes reproduzida a seguir.

Todo texto é um intertexto; outros textos estão presentes nele, em níveis variáveis, sob formas mais ou menos reconhecíveis. A intertextualidade é a maneira real de construção do texo. Entretanto, quando buscamos localizar e examinar mecanismos intertextuais de constituição do sentido da literatura, considerando determinadas fronteiras de linguagem no universo da cultura para estudar as relações entre diferentes linguagens e estilos literários, averiguamos que o termo intertextualidade pode limitar nossos procedimentos de análises (BARTHES apud BRAIT, 2006, pp. 163-164).

Hutcheon propõe uma alternatia de enfoque mais abrangente para contrapor a limitação citada por Barthes, sugerindo o termo interdiscursividade como “mais preciso para as formas coletivas de discurso” (HUTCHEON, 1991, p. 169). Estudos de Hutcheon caminham em consonância às teorias de Bakhtin, para quem “a questão do interdiscursivo aparece sob o nome de dialogismo (FIORIN apud BRAIT, 2006, p. 164), sendo que “as relações dialógias tanto podem ser contratuais ou polêmicas, de aceitação ou de recusa, de concerto ou de desconcerto” (BAKHTIN apud FIORIN, 2016, p.28).

Com esta fundamentação teórica sobre intertextualidade e dialogismo, passamos a refletir sobre o diálogo intertextual e dialógico estabelecido por Homero com a mitologia grega nos poemas épicos Ilíada e Odisseia, como veremos na primeira parte do desenvolvimento deste artigo. Repetimos o mesmo método de análise ao estudar, na sequência, o dialogismo como uma das formas composicionais da poetisa portuguesa Andresen e ao escrutinar o modo pela qual ela insere os discursos de outos em seus enunciados poéticos, assim como o fizemos também ao investigar as estratégias adotadas pelos discursos midiáticos para inserirem, em entrelinhas de textos e em outros tipos de mensagens da imprensa (fotos, charges…), juízos de valor sobre as falas e o comportamento de indivíduos do gênero feminino que alçaram seu protagonismo histórico à condição de mitos contemporâneos, conforme apresentado na última parte do desenvolvimento deste trabalho.

Para a análise da associação entre a visão de mundo de Homero e Andresen, os ritmos das narrativas mitológicas e da poesia épica e lírica e a trajetória do divino feminino como fio condutor da criação poética pelo fio condutor da linguagem até chegarmos no estudo semiológico e semiótico dos mitos nos discursos midiáticos, recorremos às definições de mito propostas por Barthes (2006), Cassirer (1972), Eliade (2016), Campbell (2015) e Harari (2017), as quais se complementam no desenvolvimento deste artigo.

A presença das figuras míticas femininas nas obras poéticas analisadas tem conexões explícitas e implícitas com o amor que tenta vencer os antagonismos ao almejar a unidade espiritual, isto é, buscar a substituição do caos provocado por pulsões psicológicas desenfreadas dos seres humanos pela ordem resultante de uma síntese dinâmica de suas virtudes.

A capacidade de aceitação das mulheres de amar pelas vias do sacrifício ao se identificarem emocionalmente com os seres amados, mesmo quando essa devoção contenha em si a expressão da agressividade necessária para destruir inimigos (etéreos e carnais) dos seres amados e, ainda, conviver com a violência física e psicológica masculina, conforme apreendemos das narrativas mitológicas gregas e dos poemas estudados – com mais ênfase em Homero, cuja obra tem um caráter pedagógico de orientação masculina –, nos impulsionou também a investigar o conteúdo literário das obras propostas pela perspectiva de Barthes (2006), para quem “o mito é uma fala escolhida pela história […] E essa fala é uma mensagem” (BARTHES, 2006, p.132). Uma mensagem que requer um suporte ou um veículo de comunicação para se propagar e até se fortalecer, como demonstramos em nossa análise sobre os discursos midiáticos contemporâneos, nos quais questões de gênero ainda não são levadas em consideração como instrumento de construção de conhecimento sobre a harmonia entre os seres humanos, muito pelo contrário, haja vista a predominância nesses meios da violência psicológica de orientação masculina, o que demonstra uma continuidade dos valores do patriarcalismo advindos de um passado conservador que tende a manter a mulher em posição de submissão aos homens, reafirmando em essência, ou seja, pelo fio condutor da linguagem, uma prática social instaurada pelas superestruturas nas infraestruturas de produção econômica e cultural – práxis que está presente na história da humanidade desde a Revolução Cognitiva dos Homo sapiens. Afirma Barthes:

Neste mundo de essências, a própria mulher tem como essência o estar-ameaçada; por vezes pelos pais, mais frequentemente pelo homem; em qualquer dos casos, o casamento jurídico constitui a salvação, a solução da crise […] (BARTHES, 2006, p. 75)

Uma “solução” impingida ao universo feminino pela práxis social de manutenção de aparências, a qual oculta conflitos em vez de tentar realmente solucioná-los, reprimindo a manifestação de ideias e a luta pela mudança de um statos quo, enquanto aumentam as taxas de feminicídio nas sociedades menos avançadas economicamente e se mantém as mulheres cerceadas de sua liberdade plena em boa parte do mundo oriental.

  1. DEUSES HOMÉRICOS, AS MULHERES E O BUTIM

Na Grécia Antiga, o contar histórias e a difusão dos mitos compunham a essência da educação em associação com outras atividades disciplinares, como retórica, dança, religião, música, matemática, filosofia, geografia e ginástica, sob o conceito de paideia (de paidos, em grego, que significa criança, isto é, criação de meninos). O objetivo do sistema educativo dos gregos sob o conceito de paideia era a transmissão dos costumes de geração em geração, entretanto, é importante atentar para as considerações de Jaeger sobre o fundamento de suas práticas pedagógicas e didáticas:

Os antigos estavam convencidos de que a educação e a cultura não constituem uma arte formal ou uma teoria abstrata, distintas da estrutura histórica objetiva da vida espiritual de uma nação; para eles, tais valores concretizavam-se na literatura, que é a expressão real de toda cultura superior. (JAEGER, 1995, pp. 1-2).

Além de contarem histórias, entretendo receptores e sacralizando as histórias que contam, os mitos podem ser considerados sinônimo de sabedoria e recurso educacional. Vem dessa convergência de funções dos mitos a sua qualidade de patrimônio da humanidade, o que os torna eternamente presentes na história das civilizações, tanto em sua forma narrativa original quanto por meio de adaptações orais e escritas, intersecções ficcionais, reinterpretações, interposições, intertextualidade e dialogismo.

Retornando à Grécia Antiga e considerando lícito afirmar que, sob o conceito da paideia, foi Homero o maior educador do povo grego em seu período clássico na opinião de Platão e de pensadores do mundo moderno, também podemos concluir que mito e poesia foram e são instrumentos pedagógicos de valor incomensurável quando o objetivo do sistema e dos planos educacionais de uma sociedade é a formação da cidadania sob o escopo da democracia alicerçada no conceito de justiça.

Autor dos poemas épicos Ilíada e Odisseia, Homero tem sua biografia confundida com sua própria obra, em razão da falta de dados precisos sobre suas datas de nascimento e falecimento – supõem-se que ele tenha vivido por volta dos séculos VII e VIII antes de Cristo. Dentre outras produções artísticas de Homero, destacam-se a Ilíada e a Odisseia, as quais entrelaçam, em suas narrativas poéticas, as vidas dos deuses da mitologia grega com as vidas dos seres humanos mortais – pessoas comuns, vítimas, vilões e heróis. Assim, do encontro entre a tradição do passado representada por protagonistas e antagonistas da mitologia grega e o protagonismo histórico de homens e mulheres gregos que enfrentam dissabores alusivos a acontecimentos supostamente reais, como a Guerra de Troia, os poemas épicos de Homero, além de celebrarem a glória, celebram o conhecimento, a sabedoria e induzem à formação de cidadãos.

A transposição de narrativas míticas para o contexto da poesia épica nas obras de Homero compõe um universo literário que reatualiza a grandeza heróica e sagrada de figuras masculinas e femininas da mitologia grega com o empuxo de representar o transcendente, porém, não unicamente sob a perspectiva do tempo primordial ou dos deuses do Olimpo, haja vista que a história de caráter objetivo é também uma das colunas da narrativa poética que podemos acompanhar na Ilíada, pelo desvelar nas relações sociais e políticas na Guerra de Troia, assim como a história ficcional vivida por Ulisses em Odisseia tece redes com os papeis sociais desempenhados na vida real do tempo da narrativa sob a influência de personagens da mitologia.

Deuses, seres humanos divinizados, entes sobrenaturais são personagens de poemas de Homero que podem ser identificados como metáforas da transcendência de um sujeito lírico que empreende trajetórias discursivas do presente dele para o passado, de lá retornando ao tempo da produção dos enunciados pela presentificação de episódios míticos buscados no panteão grego e pela adoção de uma forma estética que se consagrou como cânone literário.

Para além das fronteiras da literatura, todavia, e sob o olhar orientado e orientador da paideia, o discurso poético de Homero nessas duas obras que aqui contemplamos tem finalidades que não se restringem ao entretenimento porque ele idealiza, sob princípios pedagógicos gregos, educar cidadãos, formar e manter conceitos sobre os mais diversos temas, unificar e fortalecer o mundo grego, mantendo os laços que o conecta com seu passado histórico e mitológico. Com essa amplitude, a transcendência do sujeiro lírico à qual nos referíamos anteriormente em relação aos seus pensamentos e emoções – os quais galgam pela poesia um limiar superior em contraposição à sua condição terrestre ao dialogar com deuses da mitologia grega, em espiral dialógica e polifônica – transcende novamente por outros caminhos e estágios, alcançando a transdisciplinaridade no tempo da antiguidade clássica e no tempo presente dos leitores atuais, pois ainda hoje suas obras, que servem de inspiração e modelo como canône literário, também dialogam com outros campos da cultura moderna, como por exemplo a filosofia do Direito.

Em análise de Campbell (2015, pp. 179-196), a Ilíada é associada a um mundo de orientação masculina que abarca os povos indo-europeus, isto é, as figuras de deuses como Zeus e Apolo predominam ao lado das figuras masculinas de heróis gregos, tanto como protagonistas da ação da narrativa poética épica, quanto como possuidores da sabedoria divina e humana que se presta à condução social e religiosa do mundo grego. Recordando brevemente o cerne da narrativa, Helena, esposa do espartano Menelau, é raptada pelos troianos; Menelau e seu irmão Agamenon reúnem um exército de heróis, dentre eles Odisseu (Ulisses), e uma frota de navios para lutar contra Troia, vencer Heitor e recuperar Helena; Odisseu, durante a batalha, será o autor de uma das mais conclamadas estratégias de guerra da história da humanidade pela construção e uso tático do indelével Cavalo de Troia, por meio do qual os gregos destroem Troia.

Ao apontar o caráter de orientação masculina da narrativa épica Ilíada, Campbell ressalta o trecho de um diálogo entre Agamenon e seu irmão Menelau, conforme reproduzimos a seguir:

De modo que Helena é raptada e Menelau vai até seu irmão Agamenon e diz: “Aquele troiano! Ele fugiu com a minha mulher!” E Agamenon responde: “Hummm! Isso não está certo. Temos de pegá-la de volta”. Essa resposta mostra a mulher como propriedade (CAMPBELL, 2015, p. 189).

Helena é reduzida, portanto, à condição de butim, prisioneira tomada pelo inimigo que deve ser recuperada por meio de batalhas que configuram a guerra entre gregos e troianos. Mortal, sem poderes divinos e sem os “poderes” da masculinidade, Helena encarna, na narrativa, a personificação de um roubo ou de uma pilhagem, ou seja, mesmo sendo uma representante da nobreza, como personagem feminina Helena é coisificada. Não se vê em situação mais digna, na narrativa, Ifigênia, filha de Clitemnestra, esposa de Agamenon, que, a pedido dele mesmo, é morta em sacrifício à deusa Ártemis para que ela fizesse soprar ventos a favor da frota dos gregos a caminho da batalha com Troia. Embora morta em Ilíada, Ifigênia foi poupada, segundo a mitologia grega, pela deusa Ártemis no instante final do sacrifício e transformada em sacerdotisa do templo da deusa Diana. De qualquer modo, Ifigênia foi retirada do seu convívio social e, assim como Helena, é coisificada na narrativa, na qual, como a musa de Menelau, é tratada como butim em negociação entre os homens e a deusa Ártemis.

Esses dois exemplos – Helena e Ifigênia –, dentre outros que poderíamos extrair da Ilíada, confirmam o direito patriarcal, concernente ao sistema patriarcal, que se contrapõe nessa narrativa épica às bases do sistema matriarcal que imperava entre os povos pagãos, denotando a preocupação do sistema paideia da Grécia Clássica em educar pelas vias contrárias do paganismo e do matriarcalismo. As mulheres são, de modo geral, na visão de Homero, mesmo quando incorporam em sua narrativa figuras da divindade, submissas à orientação de caráter masculino, servindo, tanto aos homens mortais como aos deuses, como elementos de ligação destes com as forças da natureza, terrestres e divinas, acentuadamente pelo capacidade de reprodução, ou seja, pelas habilidades maternas.

O diálogo entre os gêneros, segundo nossa percepção, tanto na Ilíada, como na Odisseia, é preponderantemente tendencioso ao enaltecer a masculinidade de deuses e homens mortais. Mulheres mortais e deusas são, por princípios difundidos pelos valores gregos, coadjuvantes, sendo faceta de seus poderes sociais e divinos promover a conexão entre a força masculina, as forças divinas e as forças da natureza, mas não mais como a principal força criadora do universo conforme apreendemos da mitologia mais antiga na comparação com a mitologia revisitada por Homero em suas criações. Campbell confirma nossas observações ao analisar o papel das deusas femininas na Odisseia, em que Penélope espera pelo retorno de Odisseu tecendo o dia inteiro a parte que lhe cabe de um butim dos poderes tomados por homens da Grande Deusa, o que leva a própria Penélope a ser transformada também em butim, enquanto desmancha durante a noite o que às custas de muito sacrifício feminino consegue produzir durante o dia para se defender de forças masculinas predadoras – o destino de orientação masculina grega lhe ordena que simplesmeste espere pelo seu heroi, seu homem-deus, para que ele a salve das crueldades do mundo.

 3.2. VISÕES MÍTICAS DE CASSANDRA NA POESIA DE ANDRESEN

A transposição de narrativas míticas para contexto da poesia moderna portuguesa é temática recorrente na obra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen. Os discursos mitopoéticos da poetisa compõem, assim como acontece nas obras de Homero, um universo literário que reatualiza a grandeza heróica e sagrada de figuras femininas e masculinas da antiguidade clássica grega com poder de representar o transcendente. Todavia, ao ressacralizar, pela poesia mítica, memórias importantes do consciente coletivo das civilizações, Andresen cria, pela linguagem poética, jogos de percepções objetivas e subjetivas que promovem o tecer de imagens e melodias expressadas, com intenso lirismo, sob ótica feminina, e singulariza a transposição de mitos para a poesia moderna portuguesa pelo espelhar da cultura de sacrifício feminino.

Da natureza (mar, terra, água, flores, sol, lua…), a autora seleciona elementos para transitar entre o real e o mundo subjetivo da poesia, onde os significados dos signos que representam os objetos de seu foco lírico são moldados ou tonificados em graus diversos para servir de estrutura às suas composições que, em muitos momentos, além de reviver a mitologia grega, aludem reflexivamente à filosofia cristã, aos valores e aos amores portugueses (triunfos pela busca, as navegações, as amizades exemplares), havendo ainda espaço literário em suas obras para críticas sociais – na poesia e na prosa.

O lirismo de Andresen também evoca o amor no sentido etérico, isto é, o amor como centro unificador que permite a reingração dos seres humanos com universos simbólicos da Unidade, do equilíbrio primordial, por meio dos discursos poéticos. O amor cultivado por diferentes formas de sublimação – como o amor glorioso dos clássicos, o ágape grego, o amor como princípio cosmogônico, o amor divino, o amor confessional, o amor sem ambição, o amor da renúncia ao império dos sentidos – é contraposto, em muitos dos seus poemas, às vontades e paixões humanas que iludem a razão.

O poema Kassandra, da coletânea Dia do Mar, livro publicado em 1947, é uma das composições da poetisa que se destaca pela transposição para a era moderna da literatura de uma narrativa protagonizada por uma figura mítica do gênero feminino e pelo deus grego Apolo, “maestro” das musas do canto e da poesia, ele mesmo considerado, em associação com o sol e a beleza da harmonia, o deus protetor e incentivador da música e da poesia.

O título revela em si o tema mítico, mas há na obra de Andresen outras composições que remetem o leitor à antiguidade clássica grega sem anunciar denotativamente à identidade das personagens míticas revisitadas – em alguns casos, mesmo sem dar nomes de seres, entes e lugares, as “pistas” da autora são evidentes; em outros, os leitores têm de ser aprofundar na interpretação para estabelecer relações intertextuais com os episódios míticos reatualizados.

Kassandra, em grego, é um nome formado pela união dos elementos kekasmai e kad, cuja tradução é “brilhar”, e aner, que significa “homem”, resultando no significado “a que brilha sobre os homens” ou “a que protege os homens”. Na mitologia grega, ela é filha de Príamo e Hécuba. Príamo foi aprisionado na infância, ainda com o nome de Podarces, juntamente com sua irmã Hesíone, durante a tomada de Troia pelo herói Héracles (Hércules), uma geração antes da Guerra de Troia. A menina Hesíone foi dada como esposa a Télamon, pelo amigo Hesíone. Nas núpcias, Hesíone pediu como presente o próprio irmão aprisionado, recebendo direitos sobre ele por compra, motivo pelo qual o menino, ao deixar de ser prisioneiro, passou a ser chamado Príamo, cujo significado é “o que foi vendido”. Ao se transformar num jovem guerreiro, Príamo conquistou o trono de Troia e teve muitos filhos com sua segunda esposa, Hécuba (famosa por seu poder de fecundidade), dentre eles Cassandra, Heitor, Páris, Heleno, Troilo. Na lista de Apolodoro (intitulada Biblioteca), que reúne, em grego, todas as narrativas da mitologia grega e cuja autoria é outorgada a Pseudo-Apolodoro, Príamo teve 47 filhos homens. Na Guerra de Troia, Príamo já era homem velho, por isso não mais combatia, e sim presidia os conselhos de guerreiros.

Filha, portanto, de um grande rei, Cassandra costumava visitar templos com irmãos ainda pequena. Numa das vezes, ela foi esquecida pelos pais juntamente com seu irmão gêmeo Heleno no templo de Apolo Timbriano. As crianças passaram ali a noite, sendo encontradas, ao amanhecer, entre duas serpentes. A partir desse episódio, ambas as crianças desenvolveram o dom de ouvir as vozes dos deuses do Olimpo.

Cassandra cresceu e transformou-se numa jovem bela, servidora de Apolo, atraindo os olhares do deus que por ela se enamorou. O dom de profetizar de Cassandra foi enriquecido por Apolo, que lhe ensinou os segredos da profecia e fez dela uma de suas pitonisas (sacerdotisas de Apolo, recolhidas ao templo, onde permaneciam isoladas e proferiam oráculos). Entretanto, assim como Dafne, conta o mito que Cassandra se recusou a ter relações sexuais com Apolo, motivo pelo qual ele a castigou, retirando-lhe o dom da persuasão, isto é, ninguém mais no mundo, após a ira concretizada do deus (ele cuspiu na boca dela), acreditaria nas suas profecias, ainda que elas dissessem a verdade. Desacreditada em tudo que dizia por ter se recusado ao amor de Apolo, Cassandra profetizou inutilmente, por exemplo, que o rapto de Helena traria destruição e morte a Troia; que os gregos invadiriam a cidade dentro do cavalo de madeira (ela implorou ao pai, Príamo, que destruísse o cavalo que Troia ganhou de presente, porém, ele não lhe deu ouvidos); que Heitor, um de seus irmãos, morreria em combate. Ninguém confiou nos seus presságios, sendo Cassandra tratada como louca.

Perseguida por Ájax de Lócris, que lutou contra Heitor e o venceu na Guerra de Troia, a virgem Cassandra foi capturada e violada por ele num templo enquanto se escondia atrás de uma estátua de Atena, a qual foi partida em pedaços. Na partilha do butim, fruto da batalha da guerra vencida, Cassandra foi dada de presente, por Ájax, a Agamenon, que a leva para Micenas. O destino, contudo, fez com que Agamenon fosse assassinado em Micenas por Egisto, amante de sua esposa, Clitemnestra. Assim, Cassandra acabou sendo levada por outro guerreiro, Zakíntio, para Cólquida, onde ele fundou uma nova cidade na companhia da sacerdotisa, missão que ele alegava ter recebido dos deuses (ambos teriam constituído a descendência de 30 novas gerações). De acordo com algumas narrativas, Cassandra teria sido morta em Troia ou Micenas.

Presente na Biblioteca de Pseudo-Apolodoro, a tragédia de Cassandra decorrente do embate que travou com Apolo em defesa de sua castidade e pureza de sacerdotisa, cuja consequência foi o mergulho da sua mente em delírios proféticos – que, ao serem por ela proferidos como profecias, causavam repugnância nas pessoas, inclusive nas vítimas identificadas em suas vidências, como seu próprio pai, Príamo, e seu irmão Heitor –, exerceu e exerce grande fascínio sobre homens e mulheres das mais diversas culturas, sendo reatualizada literariamente por muitos autores.

Cassandra está no Canto XXIII da Ilíada, de Homero; na peça de teatro Trólio e Cressida, escrita por Shakespeare; no Auto da Sibila Cassandra, do poeta português Gil Vicente; nos Triunfos, de Francesco Petrarca; na novela Kassandra, da alemã Christa Wolf, de 1983; no filme para cinema Cassandra’s Dream, escrito e dirigido por Woody Allen, com exibição em circuito nacional em 2007; em peças de teatro, como a encenada pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, com Claudia Schapira, em 2016, em São Paulo. Em cada uma das obras citadas, determinados aspectos do mito são focados com mais ou menos relevância, de acordo com a proposta de intertextualidade do autor.

Gil Vicente, por exemplo, estabelece uma relação de paródia com o mito pela função de ironia em harmonia com os traços da comédia de comportamento exemplar que compôs. Em Trólio e Cressida, Cassandra previne aos troianos, sem ser ouvida, sobre os ataques vitoriosos dos gregos; em Petrarca, também fala a voz da vidente desacreditada; na novela alemã, o mito é tema para um discurso crítico sobre relações de patriarcado e submissão feminina; em Woody Allen, a transposição do mito fundamenta uma crítica social alusiva aos comportamentos humanos que se excedem moralmente em razão da ambição desmedida, aos sacrifícios impingidos pelos mais poderosos aos mais frágeis, ao abandono dos valores éticos que deveriam reger o convívio social.

Na transposição do mito de Cassandra feita por Andresen, o passado literário ressurge como a Idade de Ouro que pode ser recuperada pela poesia, a qualquer tempo. No instante poético recriado pela poetisa, a forma clássica petrarquiana é também recuperada, tendo a função de expressar harmonia entre forma e conteúdo do soneto – coerência formal e temática.

O poema Kassandra tem a forma de composição clássica do soneto chamado petrarquiano ou soneto italiano, cuja criação primeira é creditada ao poeta italiano Francesco Petrarca (1304-1374), autor de Il Canzioniere (O Cancioneiro), também considerado pai do Humanismo, portanto, um dos inspiradores da Renascença. Ele é composto de rimas perfeitas, com 14 versos decassílabos heróicos e enunciados que refletem a individualidade dos sujeitos líricos e seus elos com enunciados de outros sujeitos por meio da apropriação do mito de Cassandra. O destinatário não é um interlocutor direto do diálogo, selecionado com exclusividade, mas sim toda uma coletividade apreciadora de poesia. Todavia, as funções da comunicação discursiva do soneto podem ser avaliadas em seus elementos estilísticos, temáticos e composicionais, o que significa que há um raciocínio intelectual estratégico em sua composição que compreende uma série de saberes, dentre eles um profundo conhecimento da língua portuguesa; os conceitos de composição da poesia clássica; a origem, a história e as reatualizações do mito grego de Cassandra; conhecimentos sobre a cultura de sacrifício feminino.

Embora os enunciadores do soneto não tenham eleito um determinado perfil de leitor como destinatário, as funções da comunicação discursiva demonstram que a leitura do soneto possui diferentes graus de compreensão, dependendo da bagagem cultural do leitor e de suas condições de compartilhamento dos saberes interrelacionados pelos enunciadores (ou sujeitos líricos) em sua expressão poética. Também induzem a uma experiência de leitura em nível emocional, centrada no Amor idealizado e impossível, simbolizado por um mito de princípios cosmogônicos que incita a compaixão por uma mulher devota que se sacrifica em nome da castidade – seja por intuito religioso, seja por crença na predestinação ao serviço humanitário –, concedendo proteção aos seres mais frágeis, assim como induzindo ao comportamento exemplar em meio a relações sociais e até no universo das concepções artísticas (pintura, teatro, poesia, prosa, música etc). Reproduzimos, a seguir, a segunda estrofe do soneto.

Ó dia de oiro sobre as coisas quentes,

Os rostos tinham almas que mudavam,

E as aves estrangeiras trespassavam

As minhas mãos abertas e presentes.

(ANDRESEN, 2015, p. 159)

O mito de Cassandra conta uma história sagrada, um acontecimento ocorrido no tempo primordial, protagonizado por uma figura feminina humana e um deus do gênero masculino. Cassandra, devotada a Apolo, já vivia em sacrifício (virgem adoradora do deus), porém, por veleidade, o deus do canto e da poesia torna o sacrifício dela ainda mais intenso, fazendo-a desacreditada. Em todas as reatualizações do mito há uma transposição da narrativa para um novo contexto, nas quais identifica-se a prática literária da intertextualidade e, em alguns casos, a prática da interdiscursividade, visto que temos, em alguns casos, a transposição do mito para gêneros discursivos diferentes, como o cinema e o teatro. Na transposição do mito de Cassandra feita por Andresen, o passado literário ressurge, conforme já explicitado, como a Idade de Ouro recuperada pela poesia, a qualquer tempo, sob a forma clássica petrarquiana. Ao transpor o mito de Cassandra do illo tempore para o tempo da poesia, a autora do soneto, além de retornar ao passado por meio da apropriação do mito, também mescla presente e passado nas estrofes ao introjetar, uma na outra, vozes de dois sujeitos líricos manifestados em primeira pessoa.

O sacrifício feminino de Cassandra – ter visões, profetizar e não ser acreditada, o que a exclui do viver em harmonia com outros seres (deuses e humanos) – desumaniza sua condição de vida terrena, mas sacraliza sua existência mítica por meio da oralidade, cuja essência verdadeira, no caso dela, é invisível aos homens e mulheres in illo tempore. Mas a descrença em suas profecias não torna sua existência mítica desimportante, muito pelo contrário, pois quem atenta para a lição exemplar contida no mito compreende que: um “deus” pode agir por veleidade, sacrificando um ser humano; há profecias que se realizam, mesmo que mulheres e homens não tenham fé nas palavras do profeta ou da profetisa.

Cassandra está viva no mito e, segundo sugere a poesia de Andresen, também está viva como musa poética, ganhando voz de sujeiro lírico em primeira pessoa no soneto. Mas, a Cassandra do poema de Andresen, desprendida da orientação masculina da paideia grega, tem consciência da coisificação à qual foi submetida no tempo primordial da mitologia grega, assim como na reatualização do mito sob a visão homérica, propondo subliminarmente aos leitores/ouvintes do poema que juntamente com ela reflitam sobre a sua condição e o confronto do diálogo entre gêneros, no qual prevalecem os direitos do patriarcalismo. Verifica-se, portanto, que o soneto revela um sujeito lírico (talvez alterego da autora) que também faz uma autoreflexão sobre o percurso histórico, literário poético e estilístico que realiza ao revisitar o passado mítico e o passado clássico da poesia, em busca de inspiração (temas e formas) para expressar sentimentos experimentados no seu tempo presente, a década de 1940.

Em síntese, a permanência no soneto do rigor estético e da submissão da sacerdotisa e musa Cassandra ao deus da poesia, Apolo, nos leva a concluir que o sacrifício feminino, sob a visão de mundo de Andresen, não tem fim, sejam quais forem o tempo, linear ou mitológico, e o contexto histórico.

3.3. DO MITO AO PONTO DE MUTAÇÃO

 A civilização humana tem feito fantásticos progressos científicos, embora nem sempre um sistema educativo tenha tido (ou tenha) como meta principal combater a ignorância, construindo e compartilhando conhecimentos, mas sim manter o status quo de grupos que compõem uma determinada sociedade em determinado tempo e espaço, confirmando a centralização de poderes conquistada pelo modo de produção dominante a ela inerente. Harari (2017, p. 257) relata que aproximadamente 500 milhões de Homo sapiens habitavam o mundo por volta de 1500 e, hoje, a população da Terra é estimada em 7 bilhões, dentre os quais cerca de 3,3 bilhões têm acesso à internet, segundo estatísticas da International Telecommunications Union, agência da ONU especializada em tecnologias de informação e comunicação (ITU, 2017).

Apesar das terríveis desigualdades sociais que assolam todos os continentes do planeta e da fome que ainda nos assombra, a máxima “conhecimento é poder”, cunhada por Francis Bacon em 1620 (HARARI, 2017, p. 270), é praticamente unanimidade nos dias de hoje – com ou sem ética, infelizmente. Na ânsia pela conquista de poder, os Sapiens da atualidade anseiam mais do que nunca pelo conhecimento, buscando ter acesso a ele pelos mais diversos canais de comunicação, a ponto de muitos de nós repersonificarmos Homero pela pedagogia da paideia quando nos vemos admiradamente inclusos nos quadros de renomadas instituições de ensino públicas e privadas (inclusive as corporativas), nacionais e internacionais. Todavia, confundir informação com conhecimento é similar a confundir entidades imaginárias (deuses, nações e corporações) com entidades reais, empregando aqui os conceitos de Harari, 2016) sobre as redes de troca de informações, construções de conhecimento e cooperação humana.

Ao se examinar a história de qualquer rede humana, é recomendável parar de vez em quando e olhar as coisas da perspectiva de alguma entidade real. Como se sabe se uma entidade é real? Muito simples – apenas pergunte a si mesmo: “Ela é capaz de sofrer?”. Quando pessoas derrubam e incendeiam o templo de Zeus, Zeus não sofre. Quando o euro se desvaloriza, o euro não sofre. […] Quando um camponês faminto não tem o que comer, ele sofre (Harari, 2017, p. 184).

Imaginar e realizar não são atividades humanas necessariamente antagônicas e representantes, respectivamente, do mal e do bem. Não se trata disso. Trata-se de questionar como, quando, onde, por quem e por quê mitos são construídos e destruídos, seja por meio da informação disponibilizada, da ficcção ofertada ou do processo de ensino-aprendizagem que, pressupomos, tem a missão de construir conhecimento. “Por exemplo, a crença em mitos nacionais e religiosos pode provocar a eclosão de uma guerra na qual milhões de pessoas perderão suas casas, seus membros e até suas vidas”, salienta Harari (2016, p. 184). Os sapiens avessos às chamadas “teorias conspiratórias” ou que duvidam da capacidade manipulatória atribuída a grupos e instituições (entidades ora reais, ora imaginárias) de exercer influência sobre as comunidades, costumam afirmar categoricamente “eu não acredito em mitos”, independentemente da qualidade do conhecimento que possuem sobre a criação e a existência dos mitos desde a história antiga da humanidade até os dias de hoje. Por outro lado, estudiosos do assunto afirmam que o mito está presente no nosso dia a dia, sim, também no século XXI.

A mitologia está presente na existência cotidiana, no dia a dia. Muitas vezes, por falta de conhecimento, de tempo ou mesmo de interesse, o fenômeno passa despercebido. […] O pensamento mítico faz parte do patrimônio da humanidade e frequenta a vida mental, espiritual e comportamental de cada indivíduo, grupo social ou povo, somando-se a outas tentativas humanas, racionais e não racionais, de compreensão do mundo, da realidade, da vida (LAGE NETO, 2010, p. 29).

Cinema, televisão, internet, livros, jornais, revistas… meios de comunicação são, de modo geral, veículos usados para construção, propagação, manutenção e destruição de mitos, fundamentalmente nas sociedades das civilizações ocidentais. Mitos que reencarnam o ânimus das divindades da mitologia greco-romana em heróis da ficção pós-moderna, como o Super Homem e a Mulher Maravilha, por exemplo; e mitos que incorporam o ânimus divino greco-romano não como entidades imaginárias, mas sim como entidades reais que personificam formas mitológicas graças aos feitos que os fazem ser reconhecidos globalmente, com sentido positivo ou negativo, como, respectivamente, Mahatma Gandhi e Hitler. “A sociedade de hoje ainda se espelha em herois”, sintetiza Lage Neto (2010, p.36). Herois que, dependendo do grau de informação adquirida e da qualidade do conhecimento construído pelos Sapiens do século XXI, podem ganhar espaço midiático em nível mundial ao serem eleitos à fama pelo número de acessos aos seus vídeos no YouTube; eleitos pelo status de celebridade efêmeras por determinado período de cativação; eleitos pelo desempenho acima da média – invejado – em determinadas atividades e campos culturais, como o esporte e a música; eleitos pela esperança que inspiram naqueles que com eles comugam ideais de transformações sociais em benefício dos seus próprios eleitores e da sociedade como um todo.

Discursos midiáticos atuais, em todos os meios de comunicação, estão impregnados de enunciados elaborados sob estética similar dos contadores de histórias mitológicas, buscando empatia e terreno fértil para germinar nos seus receptores a imitação de comportamentos propagados como exemplares – são as falas carregadas de poder de influência mitológico de caráter hegemônico, em consonância com dimensões da cultura político-intelectual contemporâneas. Saïd, ao discorrer sobre o Oriente como uma invenção do Ocidente, ressalta:

Em qualquer sociedade não-totalitária, certas formas culturais predominam sobre outras, do mesmo modo que certas ideias são mais influentes que outras; a forma dessa liderança cultural é o que Gramsci identificou como hegemonia, um conceito indispensável para qualquer entendimento no Ocidente industrial (SAÏD, pp 18-19).

Entendemos que, sob a difusão de uma consciência geopolítica e de uma série de interesses de fundo sociológico, cultural e econômico, há uma hegemonia vigente em discursos midiáticos dos continentes americanos dos tempos atuais no que concerne à orientação masculina com o intuito de sacralizar comportamentos femininos considerados exemplares e, simultaneamente, endemonizar comportamentos femininos considerados indesejados – práticas discursivas estas que podem assumir (oralmente, visualmente e por escrito) as formas de narrativas ficcionais (novelas televisivas, filmes de cinema, vídeos de internet, livros de romances, contos, propaganda etc) e de não ficção (reportagens jornalísticas, editoriais, crônicas, artigos, biografias, propaganda testemunhal etc.), cabendo muitas vezes aos textos de não ficção, além da função de informar sobre fatos dados como verídicos e historicamente relevantes sob perspectivas local ou global para serem amplamente divulgados, a função de os analisar, mas sob qual prisma?

Nas Américas, citando somente alguns expoentes literários com poder de influência sobre nós que abordaram o tema, quando refletimos sobre o gênero feminino cultural, educativa, social e economicamente ainda somos homéricos, shakespearinos, andresenianos, woodyallenianos…? Afunilando a questão, se espelharmos a superestrutura ocidental atual com a superestrutura da Grécia clássica, como definiríamos a orientação dos nossos sistemas educativos, culturais e de comunicação nos dias de hoje com a relação à questão dos gêneros também enfocada na mitologia clássica? Permanecemos sob orientação masculina, caminhamos 360º para a orientação feminina, estamos desorientados, em ponto de mutação ou em ponto de equilíbrio?

Em razão de inúmeros fatores influenciadores, como modos de produção socioecômicos, costumes religiosos e produções culturais das intelligentsias dominantes, as respostas para essas perguntas não são exatas, isto é, não configuram um padrão que possa retratar com fidelidade a realidade, pois há graus de diferenciação pela análise do tema de acordo com o contexto social observado, não somente quando o foco de investigação diverge geograficamente, entre, por exemplo, New York (EUA) e Alexânia, cidade do entorno do Distrito Federal em Goiás (Brasil), mas também quando o foco de observação concentra-se em grupos comunitários que, embora pertencentes a uma mesma sociedade geopolítica, possuem características distintas decorrentes do acesso à educação formal, aos meios de comunicação, aos bens de consumo, à diversidade cultural etc.

De qualquer modo, da coisificação e mitificação da atriz Marilyn Monroe, insufladas por Hollywood (EUA) e transformada em butim na esfera política pelos irmãos Kennedy, morta em 1962, e da coisificação e mitificação da socialite brasileira Angela Diniz, assassinada por Doca Street, em 1976, no Rio de Janeiro (Brasil), passando pelo mito “a mulher de Ipanema” vivido em sua jornada pela quebra de tabus pela atriz Leila Diniz, morta em 1972, chegamos a novembro de 1917 acompanhando relatos nas mídias do assassinato da adolescente Raphaella Novinski (RESENDE, 2017), de 16 anos, no Colégio Estadual 13 de Maio, em Alexânia (Goiás, Brasil), cometido pelo maior de 19 anos Misael Olair, que, assim como Apolo, odiava esta pequena Cassandra, simplesmente por ter sido rejeitado por ela amorosa e sexualmente.

É um estudo doloroso, delicado e de desmistificação, como podemos concluir, inclusive porque as respostas das perguntas feitas anteriormente têm como ponto de partida as relações de troca de informações e construção de conhecimentos que se estabelecem entre os diversos meios de comunicação disponíveis ao público e os diversos canais que lhe facultam acesso à educação formal, não formal e informal, dentre eles as escolas, as universidades, as instituições de cursos livres, os museus, as ONGs etc. Comparando, se a paideia no classicismo grego previa o encontro entre mitologia e as diversas disciplinas do conhecimento para promover a educação dos cidadãos, atualmente, a sociedade ocidental prevê em seus sistemas educativos o encontro, bem como o confronto, entre os meios de comunicação (com todos os mitos em construção e desconstrução que fazem parte de seus discursos) e as instituições de ensino formais e não formais para, pedagogicamente, fomentar a cidadania e preparar cidadãos para o mundo em constante transformação que, mais do que nunca, requer análises críticas.

Essse estudo nos impulsionou também a incursões sobre mitos femininos em processo de construção e desconstrução no campo político, tomando como exemplos a ex-presidente do Brasil Dilma Rousseff e a ex-candidata à Presidência dos EUA Hillary Clinton. Para esta investigação, recorremos à Hemeroteca da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, onde consultamos os jornais O Estado de S.Paulo, O Globo e Folha de S Paulo, de janeiro de 2010 a julho de 2017, incluso neles notícias e artigos traduzidos de publicações internacionais como o jornal estadunidense The New York Times, a revista estadunidense Time, o jornal estadunidense Washington Post, o jornal inglês Financial Times e a revista inglesa The Economist, mais as revistas brasileiras Carta Capital, Veja, Claudia e Marie Claire, de janeiro de 2014 a julho de 2017. Antes, porém, de continuarmos a discorrer sobre a presença do efeito Cassandra pela ridicularização de falas e comportamentos de mitos femininos em discursos midiáticos, reflitamos sobre o conceito de mito como sistema semiológico (Barthes, 2006), ampliando a definição de Eliade (2000) com a qual trabalhamos nas análises das obras poéticas de Homero e Andresen. Eis a proposição de Barthes para o final da década de 1950:

O que é um mito hoje? […] o mito é uma fala. […]São necessárias condições especiais para que a linguagem se transforme em mito […] Mas o que se deve estabelecer solidamente desde o início é que o mito é um sistema de comunicação, é uma mensagem. […] Ele é um modo de significação, uma forma. […] Já que o mito é uma fala, tudo pode constituir um mito, desde que seja sucetível de ser julgado por um discurso. […] o discurso escrito, assim como a fotografia, o cinema, a reportagem, o esporte, os espetáculos, a publicidade, tudo isso pode servir de suporte à fala mítica (BARTHES, 2006, pp. 131-132).

Quando investigamos os enunciados dos editores, redatores, repórteres, comentaristas e articulistas, bem como o material fotográfico e as imagens produzidas por chargistas dos jornais e revistas citados em nossa pesquisa na Hemeroteca Mário de Andrade, concentramo-nos na construção e destruição dos mitos políticos femininos Dilma Rousseff e Hillary Clinton sob a ótica de Barthes, ou seja, imputamos às duas mulheres e seus discursos o caráter de significante (aspecto material dado) e ao trabalho jornalístico de reproduzir e analisar fatos por elas protagonizados e a elas associados o caráter de significado (aspecto conceitual tecido pela mídia). Da análise do vínculo estabelecido em ambos os casos entre significante e significado, elaboramos nossa síntese dialética, permitindo-nos, sem entrar no mérito dos discursos dessas duas grandes representantes da atuação política das mulheres nesta segunda década do século XXI (portanto, mantendo-nos sob postura apartidária como pesquisadores), perscrutar os graus de orientação masculina da mídia contemporânea e o empobrecimento do debate em torno das questões de gênero, isto é, dos comportamentos construídos socialmente, do apreço pela liberdade e pela tolerância. Essa análise nos levou a listar as seguintes constatações:

A – Durante as campanhas partidárias em período anterior às eleições presidenciais, ambas as candidatas contaram com amplo apoio da mídia de modo geral, a qual, metaforicamente, comportou-se como Apolo em face de Cassandra, ao enaltecer os discursos das duas mulheres e os avanços que elas significavam para a representação feminina na política mundial. A revista Carta Capital, por exemplo, publicou uma matéria sob o título “Hillary Clinton, a mãe da América” (GRAÇA, 2015), em abril de 2015. Por sua vez, um dia após a posse do primeiro mandato de Dilma Rousseff, em 2 de janeiro de 2014, o jornal O Globo publicou uma matéria favorável ao seu governo, com uma foto de poder ostentador da presidente, ao lado de sua filha, sendo saudada pela Guarda Nacional em Brasília, abaixo do título “Defesa do legado com promessa de mudanças” (EQUIPE DE REPORTAGEM BRASÍLIA, 2014). Todavia, passada a fase de euforia pela celebração da construção desses mitos femininos vitoriosos, fatos negativos começaram a receber amplo destaque nas coberturas jornalísticas das vidas privadas e das carreiras políticas de ambas, inúmeras vezes acompanhados de comentários maldosos que desmerecem a importância feminina na política, a ponto de o jornal O Estado de S.Paulo intitular uma matéria sobre Hillary de “Conspiração genital: com ajuda do FBI, falocracia americana faz o que pode para derrubar Hillary” (AUGUSTO, 2016). A revista Veja não deixou por menos em matérias alusivas ao processo de impeachment de Dilma, publicando em maio de 2016 uma foto emblemática (COPPOLA, 2016), clicada por Jefferson Coppola e especialmente editada para ilustrar o texto de Thaís Oyama, intitulado “Os últimos dias de Dilma Rousseff”, na qual ela parece arder no fogo (era a tocha olímpica), similarmente a uma divindade mítica num momento de sacrifício aos deuses do Olimpo.

B – Mesmo na fase de comentários positivos sobre os discursos e fatos relativos a Dilma e a Hillary, foram incontáveis as piadas jocosas, por meio de textos, fotos e imagens, que desrespeitavam questões de gênero, buscando inspiração na dualidade macho X fêmea para atrair leitores. No caso de Hilary, por exemplo, o jornal O Estado de S.Paulo a denominou como “a noiva deixada no altar em 2008” (GUIMARÃES, 2014), enquanto outros veículos, ao se referirem a ela, insistiram em destacar, inúmeras vezes, o “cargo” de ex-primeira-dama dos EUA, como esposa do ex-presidente Bill Clinton, em detrimento do cargo de senadora anteriormente por ela ocupado, bem como o de secretária de Estado do Governo Obama. De “noiva” deixada no altar nas disputas internas do Partido Democrático norte-americano, Hillary passou, segundo a imprensa, a ter um “flerte” (BARBOSA, 2015) com a Casa Branca, de onde o ex-presidente Barack Obama comandava a nação durante a disputa eleitoral enfrentada por ela com o atual presidente dos EUA, Donald Trump.

C – Quando Trump é eleito 45º presidente dos Estados Unidos, em uma vitória considerada inesperada pela mídia internacionalmente, após sinalizados problemas de comportamento ético na campanha de Hillary Clinton pelo FBI, o mito político feminino norte-americano começou a ser descontruído com mais veemência. Os elogios anteriores foram transformados em novos ataques discursivos que reforçaram o tom jocoso dirigido à personalidade feminina, novamente com desrespeito a questões de gênero e à diversidade, dessa vez propagando-se que os enunciados de seus discursos não estavam fundamentados na realidade norte-americana, ou seja, que o insucesso do seu programa de governo se deveu, entre outros fatores, ao efeito Cassandra, entendido como previsões não realizáveis e desacreditadas pelos cidadãos eleitores.

D – No caso de Dilma Rousseff, do início do seu governo como primeira mulher eleita presidente do Brasil, em 2011, até o final do processo de impeachment durante seu segundo mandato, em agosto de 2016 (iniciado em dezembro de 2015), o ataque dos discursos midiáticos a ela, assim como ao gênero feminino, por meio da desconstrução do mito, foi avassalador, por meio de textos e imagens, em todos os meios de comunicação. Não foram poupadas denominações desrespeitosas na mídia, reproduzidas em redes sociais, como “jararaca” e “louca”. Visando o desacreditar da população nas falas políticas e administrativas da comandante da Nação, bem como nas falas heróicas e mitológicas de Dilma Rousseff como combatente da Ditadura Militar e militante do Partido dos Trabalhadores, difundiu-se o descrédito em seus discursos até mesmo pela criação do termo “dilmês” em referência aos seus enunciados considerados desconectados da realidade brasileira. Assim como Hillary, a ex-presidente Dilma sofreu na mídia as consequências do efeito Cassandra: foi ridicularizada em textos e imagens. Desamada por Apolo (metaforicamente, os representantes do poder econômico brasileiro e os próprios eleitores, além de companheiros partidários, como o vice-presidente Michel Temer), Dilma, igual a Cassandra, foi “condenada” a se retirar do posto para o qual foi eleita sendo acusada de proferir inverdades com relação ao destino da Nação.

E – Simultaneamente, enquanto iam sendo descontruídos os mitos políticos Dilma Rousseff e Hillary Clinton, outros mitos femininos continuaram sendo construídos pela mídia de massa, em continuidade à orientação masculina das superustruturas dos Estados Unidos e Brasil. No caso norte-americano, o mito Michelle Obama foi um dos destaques da mídia nesse período, endeusada pelos dons de sua oratória e empatia popular, embora seu apoio à candidata Hillary não tenha surtido o efeito desejado pelos seus eleitores. No Brasil, a esposa do juiz Sérgio Mouro, a advogada Rosangela Mouro, por exemplo, foi entrevistada nas páginas amarelas de Veja, em dezembro de 2016, e foi capa de Claudia, lugar de destaque também ocupado por outras personalidades femininas, como as apresentadoras de televisão Ana Hickman (janeiro de 2016) e Fátima Bernardes (maio de 2016), assim como as jornalistas Renata Vasconcelos e Patrícia Poeta ocuparam as capas de Marie Claire, respectivamente, em fevereiro de 2014 e fevereiro de 2017.

Michelle Obama não sofreu, nem sofre ainda, em sua carreira política como ex-primeira-dama dos Estados Unidos e atual militante pelos Direitos Humanos, os efeitos Cassandra provocados pelos discursos midiáticos. Já no Brasil, a senadora pelo PT Gleise Hoffmann enfrenta os mesmos dissabores que a presidente Dilma, com ataques discursivos violentos contra ela, os quais empobrecem debates sobre questões de gênero e insuflam as redes sociais à violência verbal contra as mulheres, tendo ao seu lado nessa luta “homérica” e “hercúlea” pela defesa dos direitos democráticos à fala como cidadã uma personalidade feminina defendida pela maior rede de televisão do País (Rede Globo), a jornalista Fátima Bernardes, em razão de seus posicionamentos diante de temas polêmicos discutidos em seu programa de TV.

A que ponto chegamos? Longe do equilíbrio, cremos que este estudo aponta que crises morais, econômicas, políticas e culturais, por mais doloridas que sejam, não deixam as águas estagnarem, ou seja, os enfrentamentos sociais criados por essas crises dificultam as relações humanas no dia a dia, todavia, também propiciam a quebra de paradigmas, estimulando um olhar mais atento e reflexivo sobre o nosso passado com o objetivo de construirmos um presente e um futuro com base nos conhecimentos adquiridos pelos erros cometidos, sob visão mais crítica e alicerçada nos princípios da democracia que defendem, assim como o direito de ir e vir, o direito de ser e existir em liberdade e com liberdade de opções e manifestações. Chegamos, portanto, a um ponto de mutação em sociedades americanas (no norte e o sul), o qual nos conduz ao autoconhecimento para prosseguirmos rumo a ideais de harmonia social com respeito às diversidades, ideais que não podemos antever como utópicos, assim como a paideia grega não renegou sua mitologia, ao contrário, pois dela se valeu para ampliar o acesso ao Olimpo dos seus cidadãos pelas vias da educação que, como afirma o professor Leandro Karnal “é a única grande revolução para este país” (KARNAL, 2016).

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

“O primeiro tema da reflexão grega é justiça” (ANDRESEN, 2015, p. 644). Esta afirmação é do sujeito lírico do poema Catarina Eufémia, de autoria de Andresen, no qual a autora faz uma homenagem em versos de quatro estrofes irregulares e um monóstico, no tom terno e triste da elegia, a um mito feminino que não pertence ao panteão da antiguidade clássica grega, mas sim ao Partido Comunista Português. Trata-se de Catarina Efigénia Sabino Eufêmia, uma ceifeira portuguesa assassinada a tiros, em maio de 1954, no fim de uma greve de mulheres assalariadas rurais, por um tenente da Guarda Nacional Republicana. Mãe de três filhos, analfabeta – também quase homônima da Ifigênia, filha de Agamenon, por ele entregue em sacrifício à deusa Ártemis em troca de ventos favoráveis para suas embarcações, como narramos no primeiro capítulo deste estudo –, Catarina Efigénia Sabino Eufêmia teve sua vida e a do ser que gestava ceifadas aos 26 anos de idade, por ter atuado na resistência contra o regime salazarista ao se fazer porta-voz do grupo de assalariados que se manifestava por pão e trabalho.

Rememorando palavras de Harari já citadas neste estudo, “ao se examinar a história de qualquer rede humana, é recomendável parar de vez em quando e olhar as coisas de uma perspectiva de alguma entidade real” (Harari, 2017, p. 184). Catarina Eufêmia foi transformada num mito, mas ela era capaz de sofrer? Sim. A Cassandra da mitologia grega não sofreu de verdade nas mãos de Apolo, sofreu? Mas, “quando um camponês faminto não tem o que comer, ele sofre” (Idem, ibidem). Sim, ele sofre, como sofrem todas as mulheres vilipendiadas pelo machismo, pelo sexismo, pela coisificação. Como sofrem todos os seres humanos que têm amor pelas mulheres perdidas como vítimas assassinadas por companheiros, ocorrências diárias no Brasil, cuja taxa de feminicídios é a quinta maior do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (MARTINS, 2017).

A Lei do feminicídio e a Lei Maria da Penha são, no Brasil, pontos de mutação para modificarmos esse quadro associado às características negativas de uma sociedade patriarcal, de orientação masculina, que em atitudes cínicas justifica o machismo sob véus do humorismo, da piada popular e das figuras de linguagem nos discursos midiáticos, como a ironia e o sarcasmo, cujo conteúdo cruel nada tem de engraçado, pois não somente provoca ofenças, mágoas e destrói autoestimas, como também pode alimentar ainda mais a violência numa sociedade já violenta.

Com este estudo, esperamos estimular mais debates sobre questões de gênero, a leitura crítica do mundo ao nosso redor e as reflexões sobre a cultura de sacrifício feminino em sociedades sob orientação masculina, presas a um passado conservador que, mesmo sendo poeticamente belo e epifânico como nas obras de Homero, precisa ser revisitado sob um olhar de hoje que não confunda submissão feminina com elementos divinos que ligam a força da mulher às forças da natureza; um olhar tomado pela consciência sobre o quanto é inaceitável o comportamento social alheio à dores do outro.

Segundo José Luiz Fiorin, “o discurso crítico se constitui a partir dos conflitos e das contradições existentes na realidade” (1997, p. 74), enquanto a linguagem pode ser instrumento de libertação ou de opressão, de mudança ou de conservação. Se os deuses da mitologia grega são a imagem do retorno, da coerência advinda do caos, do desfalecimento e do eterno renascer, o discurso filosófico, político e crítico unido às narrativas e às falas míticas podem abrir caminho para a refutação do comportamento de resignação humana às vozes anteriores que conformam uma tradição na qual não há respeito à diversidade. Simultaneamente, sob a configuração de discurso literário, seja pela prosa, seja pela poesia, as discussões assim tematizadas podem adquirir função social, apontando erros que ameaçam a harmonia entre os seres humanos e impedem a existência de uma militância em busca e a favor dessa harmonia.

Os discursos poéticos narrativos em Homero e Andresen, bem como os discursos midiáticos que analisamos, abrangem a realidade objetiva e a subjetividade dos seres humanos, provocando reflexões que não deveriam atingir, pelo caminho do entretenimento, somente os sentimentos dos leitores relacionados ao culto das emoções e do gosto estético. Ao mesmo tempo, supomos que esses discursos poderiam, pela conscientização de caráter humanista, democrático, alinhada com princípios éticos e a justiça, provocar em nós e nos meios sociais nos quais vivemos mutações comportamentais de fundo altruísta em sintonia com a razão e os valores humanos que contribuem para o bem-estar coletivo, e não apenas individual ou de grupos de minoria eletista e conservadora.

  1. REFERÊNCIAS

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