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Risign over limits of fantastic in Ligeia

ERGUENDO-SE SOBRE OS LIMITES DO FANTÁSTICO EM LIGEIA

By Gisele Centenaro

O objetivo deste artigo é apresentar a análise literária do conto Ligéia, de Edgar Alan Poe, publicado pela primeira vez em 1838, a qual tem como foco principal averiguar os aspectos da narrativa que, segundo definição de Tzvetan Todorov nas obras As Estruturas Narrativas e Intordução à Literatura Fantástica, a aproximam do gênero fantástico – ou nele a inserem –, bem como perscrutar sua estética de terror gótico.

Introdução

O desenvolvimento desta análise tem como base a leitura do conto Ligéia, de Edgard Allan Poe, do original em inglês e da tradução para o português feita por Oscar Mendes, com colaboração de Milton Amado. Para apoiar a interpretação da obra em inglês, foi adotada como leitura o ebook Ligeia, da Shmoop University (2010).

A primeira parte desta investigação concentrou-se na tecitura da narrativa, sob observação do entrosamento rítmico dos significantes e entrelaçamento dos significados, para chegarmos às metáforas indiretas e mediatas, isto é, à compreensão do conteúdo semântico das metáforas do texto. No campo da metalinguagem, além das funções emotivas e expressias sob indícios do gênero fantástico, averiguamos a função metalinguística e a função poética.

Para análise de gênero da narrativa em Ligéia, os conceitos que fundamentam esta dissertação são de autoria de Tzvetan Todorov no que tange à definição do fantástico; e para reflexão sobre as manifestações estéticas de caráter gótico da obra, tomamos como norte os pensamentos da doutora Miriam Andrade, em capítulo do livro O gótico e suas intersecções teórico-críticas, citado na bibliografia.

Considerando os limites de páginas estabelecidos para desenvolvimento desta análise, os capítulos a seguir são fruto de síntese investigativa, em cada um deles destacando-se os pontos mais relevantes do tópico abordado.

poe

Edgar Allan Poe

Sobre autor e conto

Nascido em 19 de janeiro de 1809, em Boston (Massachusetts), nos Estados Unidos, Edgar Alan Poe era filho de atores pobres. Ficou órfão aos 2 anos de idade, quando foi levado para a casa de um escocês negociante, John Allan, onde ficou sob cuidados da Sra. Allan e de sua irmã. Em 1815, mudou-se com a família para a Europa (Inglaterra e Escócia), retornando à América em 1820. Era exímio em línguas, oratória e natação. Começou a escrever poesias em 1823. Matriculu-se na Universidade de Virgínia em 1826. Jogava compulsivamente para angariar dinheiro com o propósito de custear suas despesas e, assim, também começou a beber. Acabou deixando a faculdade, tentou escrever para jornais, alistou-se no exército em 1827, ingressou na Academia Militar de 1830 a 31 e, então, iniciou trajetória como redator e jornalista residindo em várias cidades norte-americanas, enquanto escrevia e publicava poemas, posteriormente prosas, tendo casado-se duas vezes. Foi em 1845 que publicou pela primeira vez O Corvo, no Evening Mirros, anonimamente. O êxito lhe rendeu progressos profissionais. Mas a decadência ressurge, juntamente com a depressão e o alcoolismo. Há controvérsias sobre o motivo que o levaram à morte em 1849, sob delírio alcoólico.

Segundo Charles Baudelaire, Poe se apresenta, como escritor, sob três aspectos: “crítico, poeta e romancista; e mais, no romancista há um filósofo”. Todavia, ele ressalta: “Nos contos de Poe jamais se encontra amor. Pelo menos, Ligéia e Eleonora não são, propriamente falando, estórias de amor, sendo outra a idéia principal sobre a qual gira a obra”.

Deve-se à França, de acordo com seus biógrafos, a universalização da obra de Poe. E é grande o número de escritores de influência declarada exercida por Poe sobre suas obras, de diversas gerações e tendências renovadoras diferenciadas.

Em sua biografia também se ressalta o fato de Poe ter engrandecido as histórias de crimes e de mistérios, eregindo a estrutura narrativa essencial do gênero policial até hoje em vigor, motivo pelo qual a maioria dos críticos o intitulam, como afirma Oscar Mendes, “criador do conto policial, do romance cuja finalidade é a descoberta do autor de um crime envolto em mistério”.

ligeiailustracao

O conto que analisamos nesta dissertação, Ligéia, publicado pela primeira vez em 1838, consagra-se de modo epifânico ao introduzir o leitor no universo do insólito e do fantástico, sob aparente ingenuidade no desenrolar dos fatos narrados, circunstância que vai se modificando à medida que o texto “toma corpo”, rumando do estático para o dinâmico, ou seja, de uma exacercebada tônica descritiva mirando uma única personagem, a protagonista Ligeia, para o desenrolar sequencial de acontecimentos, os quais, enquanto caminham para um estranhamento referencial, entrelaçam temas que evocam reflexões sobre a existência humana, assim como sobre o fazer literário e poético.

No texto, um narrador irremediavelmente arrebatado pelo amor de uma mulher, sua primeira esposa, sucumbe ao delírio que resulta numa narrativa lírica de memórias, supondo-a ressuscitar de morte por doença no exato momento do falecimento de sua segunda esposa, também fatalmente adoentada, da qual usufrui o corpo para reviver, contudo, como apontado por Baudelaire e aqui já citado, parece haver muito mais mistérios entre o céu e a terra, entre um parágrafo e os seguintes das dimensões e cenários criados por Poe do que supõem nossas vãs interpretações, conforme veremos a seguir.

Foco narrativo

O foco narrativo de primeira pessoa do singular pessoa não apresenta, à primeira leitura, transgressão literária no âmbito da estrutura da composição do conto. Todavia, os signos, significantes e significados empregados logo de início estabelecem, com maestria, uma dimensão de intimidade com o leitor/receptor rara de se instalar como o faz Poe numa primeira frase:

“I cannot, for my soul, remember how, when, or even precisely where, I first became acquainted with the lay Ligeia.”

“Juro pela minha alma que não posso lembrar-me quando, ou mesmo precisamente onde, travei, pela primeira vez, conhecimento com Lady Ligéia.”

Perfeita introdução para um foco narrativo que almeja a dimensão gótica do fantástico, prendendo a atenção do leitor inclinado aos contos de mistério logo de início. Mais ainda se atentarmos para a preparação ambiental provocada pela citação inserida logo após o título, um pensamento filosófico do inglês Joseph Glanvill (1636-1680), que cultivava certezas relativas sob influência platônica, opondo-se ao naturalismo e ao ateísmo – obviamente, crendo piamente em Deus e, inclusive, em feitiçarias.

“E ali dentro está a vontade que não morre. Quem conhece os mistériios da vontade, bem como seu vigor? Porque Deus é apenas uma grande vontade, penetrando todas as coisas pela qualidade de sua aplicação. O homem não se submete aos anjos nem se rende inteiramente à morte, a não ser pela fraqueza de sua débil vontade.”

Consciente, portanto, de suas lacunas alusivas às questões espaciais e temporais, o narrador, emparelhado ao compositor do conto, fará alertas ao leitor, ao longo da narrativa, em tom de desculpas dissimulado – margeando a ironia e o sarcasmo –, pois, com o desenrolar da estória percebemos que este se trata de um recurso linguístico poético narrativo para aumentar a tensão em torno do mistério explorado.

“In studies of a nature more than all else adapted to deaden impressions of the outward world alone – by Ligeia – that I bring before mine eyes in fancy the imagem of her who is no more.”

“Mergulhado em estudos, mais adaptados que quaisquer outros, pela sua natureza, a amortecer as impressões do mundo exterior, é apenas por aquela doce palavra, Ligéia, que na imaginação evoco, diante de meus olhos, a imagem daquela que não mais existe.”

Personagens

Protagonista da história, Ligéia ocupa um terço do conto ao ser descrita pelo narrador como um ser idolatrado. É a parte da narrativa de caráter estático, na qual o leitor é levado a mergulhar profundamente nas percepções, sob muitos ângulos, que o narrador vai sobrepondo para falar de sua musa, como se estivesse pintando um quadro ou esculpindo uma imagem. As cores dessa obra, dessa imagem, mesmo nos momentos de sentimentos de amor e paz, tendem para o cinza, para o sombrio, dada o design e a essência da magestade gelada incorporada pela musa, a qual cabe ser vista também sob a perspectiva do leitor, e às evidências da forte relação intelectual que o narrador conta ter com ela, isto é, a relação predominantemente racional, embora o narador use signos referenciais da paixão e do amor sublime – até arcádico – para se manifestar sobre a mulher misteriosa – sua femme fatale.

Não é de se estranhar que o conto receba como título o nome da musa do narrador, verificando-se o espaço linguístico que a personagem ocupa no texto como figura central explorada pela narrativa, em âmbitos psicológico, histórico e estético. Quando, porém, relembramos da citação do filósofo Galvill que acompanha o título, somos induzidos, como leitores, a expandir o significado desse título, em primeira instância aceitando brincar com o narrador pela oferta de um jeu de mot, um jogo de palavras, característico tanto do gênero fantástico, como das narrativas de mistérios.

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Sereia Ligeira, filha do deus-rio Achelous e da musa Terpsícore

Sereia ou feiticeira? Ambas? Traduzida do grego, Ligéia signifca a voz clara da sereia. Na mitologia grega, ela é uma das quatro filhas do deus-rio Achelous e da musa Terpsícore (Thelxiepia ­– cantora que enfeitiça; Pisínoe – controladora de mentes; Aglaope – voz esplêndida; e Ligeia – doce sonoridade).

“O canto das Sereias é, ao mesmo tempo, aquela poesia que deve desaparecer para que haja vida, e aquela realidade que deve morrer para que haja literatura. O canto das Sereias deve cessar para que um canto sobre as Sereias possa surgir”, afirma, na página 111 de As Estruturas Narrativas, Tzvetan Todorov.

Brinquemos ainda com as posições das letras em busca de inspiração interpretativa, levados pelo nome Ligéia, e talvez seja sugestivo navegar até o signo Elegia (em grego, Elegeia), denominação da poesia triste, melancólica e complascente, geralmente composta como canto fúnebre ou lamento de morte. O poeta grego Calímaco, do século III a.C., consagrou-se como autor do gênero, sendo inclusive autor da elegia Os cabelos de Berenice, da qual Poe também empresta o nome de mulher para intitular outro de seus contos de terror gótico.

astrophel

Na poesia inglesa, o culto à elegia surgiu por volta de 1580, com Astrophel, autor de um lamento fúnebre outorgado a Edmund Spenser. Em Ligéia, o tributo do autor ao poeta está registrado também logo no início do conto.

“And, indeed, if ever she, the wan and the misty-winged Astophet of idolatrous Egypt, presided, as they tell, over marriages ill-omened, them most surely she presided over mine.”

“E, na verdade se jamais espírito de Romance, se jamais a pálida Ashtophet, de asas tenebrosas, do Egito idólatra, preside, como dizem, aos casamentos de mau agouro, então com mais certeza presidiria ao meu.”

Verificamos, consequentemente, que o propósito do autor é instaurar esse clima de ambiguidade por meio das possibilidades de interpretação de leitura seja em relação às perspectivas e sentimentos do narrador, seja no que concerne às dimensões de tempo e espaço e, segundo notado até este momento, seja no tocante à constituição da protagonista, a partir do título da obra, englobando os seus aspectos físicos e psicológicos, os quais sempre são transmitidos ao leitor por ângulos preciosamente escolhidos pelo narrador a cada novo movimento do conto.

Como pilar teórico para abordarmos a instauração dessa ambiguidade, que tanto nos faz refletir sobre a femme fatale como sobre as musas inspiradoras do fazer poético, vale aqui uma citação de Todorov, colhida da página 151 da mesma obra já citada, sobre a definição do fantástico.

“Este exige que três condições sejam preenchidas. Primeiro, é preciso que o texto obrigue o leitor a considerar o mundo das personagens como o mundo de pessas vivas e a hesitar entre uma explicação natural e uma explicação sobrenatural dos acontecimentos evocados. Em seguida, essa hesitação deve ser igualmente sentida por uma personagem; desse modo, o papel do leitor é, por assim dizer, confiado a uma personagem e ao mesmo tempo a hesitação se acha representada e se torna um dos temas da obra; no caso de uma leitura ingênua, o leitor real se identifica com a personagem. Enfim, é importante que o leitor adote uma certa atitude com relação ao texto: ele recusará tanto a interpretação alegórica quanto a interpretação poética. O genêro fantástico é pois definido essencialmente por categorias que dizem respeito às visões na narrativa; e, em parte, por seus temas.”

Entendemos, sob esse prisma, que o conto nos oferta o livre interpretar pelo deleite da leitura, sendo importante ressalvar que, ainda que nossas reflexões mantenham associações que unam as metáforas indiretas do texto com recortes da cultura e do conhecimento ao qual temos acesso, supondo que o autor também o teve, nossas conclusões nesse âmbito serão sempre relativas – nunca verdades absolutas –, sendo nosso objeto de estudo a arte, a inventividade, a criatividade e, sobretudo, a obra do fantástico. Faz parte, porém, desse jogo do ir-e-vir entre autor-narrador-leitor para que se estabeleça o trânsito pelo mistério, o clímax, a surpresa, um suposto extase implícito ao game, como assinalado anteriormente por Todorov – o esmiuçar das visões narrativas, bem como dos seus pequenos e grandes temas.

Seguindo esse norte em nossa análise, não haveremos de sermos mal compreendidos ao lançarmos a hipótese de que a antagonista no conto não é, como se poderia supor, a passiva e odiada pelo esposo Lady Rowena Trevanion, pouco exposta em termos narrativos, embora suficientemente introduzida no conflito como personagem-chave para que se institua o thriller que desembocará no ato sobrenatural da ressurreição metafísica: a transfiguração do corpo falecido no ser de Ligeia, aquela que “is no more”, “não mais é” (traduzido, em português, para “não mais existe”, retendo-se aqui uma questão de ambiguidade quanto ao emprego do verto “to be” neste caso, dado que a tradução para “existir” alude ao ser corpóreo, materializado, enquanto que a tradução para o verbo ser pode se concentrar na essência da existência humana, que, segundo muitos filósofos, Sartre entre eles, aludiria não à sua materialização física, mas sim ao seu ser “metafísico”, in memorian, artístico, cultural, espiritual…).

Passiva, odiada, a anti-Ligeia tem de desaparecer para que Ligeia ressurja, no entanto, não é a sua personalidade nula que lhe faz antagonismo, mas sim o fluxo que lhe dá vida, sua essência vital, sua composição poética. Consequentemente, a antagonista do conto é a Morte. É contra ela que Ligeia tem de lutar, vencida da primeira vez; mas saindo-se vitoriosa na segunda tentativa, quando traz do além-vida um misterioso elixir que lhe faculta, ao ocupar o lugar de uma recém-falecida, reviver para o amado. Mas, se essa ressurreição se dá exclusivamente para ele, de fato ou em sua imaginação de ópio-sonhada, ou para o mundo real jamais saberemos dizer em certeza, tendo ainda que elaborar, no fim da leitura do conto, que certeza alguma também temos sobre tudo que nos foi narrado, pois ele mesmo, o narrador, poucas certezas tem de sua história.

Recursos linguísticos

Se no conto de Poe a morte não é o fim, há uma possibilidade de retorno do além-vida? Um retorno pelo qual a ordem literária paga um preço? Um preço cobrado pelas sombras do sobrenatural, da instauração da dúvida, da relativização das certezas científicas, do conhecimento humano, do corromper da poesia pura?

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Francis Bacon, Lord de Verulam

Esta busca alquímica de Francis Bacon, Lord Verulam, por exemplo, citado no conto, foi alcançada até que grau de êxito quando o mote era a imortalidade? Quais foram as contribuições científicas de Bacon com suas experiências sobre o congelamento do corpo humano após a morte para prolongar sua existência física (1626)? Quais foram suas contribuições filosóficas em face de seus contemporâneos com as publicações de Instaratio Magna (1620), Novum Organum (1620) e Nova Atlantis (1624)?

“It might have been, too, that in these eyes of my beloved lay the secret to which Lord Verulam alludes. […] I have feltin the ocean; in the falling of a meteor. I have felt it in the glances of unusually aged people. And there one or two stars in heaven –(oneespecially, a star of th sixth magnitude, double and changeable, to be found near the large star in Lyra) in a tellescopic scrutiny of which I have been made aware of the feeling. I have been filled with it by certain sounds from stringed instruments, and not unfrequently by passges from books.”

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“Podia ser, também, que naqueles olhos de minha bem-amada repousasse o segredo a que alude Lord Verulam. […] Senti-a no oceano, na queda dum meteoro. Senti-a nos olhares de pessoas extraordinariamente velhas. E há uma ou duas estrelas no céu (uma especialmente, uma estrela de sexta grandeza, dupla e mutável, que se encontra perto da grande estrela da Lira) que, vistas pelo telescópio, me deram aquela sensação. Senti-me invadido por ela ao ouvir certos sons de instrumentos de corda e, não poucas vezes, ao ler certos trechos de livros.”

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Constelação de Lyra

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Vega, a 5ª maior estrela em magnitude do universo visualizado, na Constelação de Lyra

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Gliese 758, uma estrela de sexta magnitude, localizada na Constelação de Lyra

Eis o narrador traçando um percurso sem igual, pela tecitura do texto, ao abarcar funções de linguagem de universos cheios de mistérios, impostas as circunstâncias de cada época, como a filosofia, a cosmologia, a astrologia, a fenomenologia, a alquimia, que casam emotividade com suspense, temporalidade com atemporalidade, dimensões espaciais físicas com dimensões psicológicas, muitas perspectivas sob a perspectiva de um único narrador e, como se não bastasse, em movimento, o que gera o efeito do olhar gestáltico, tornando explícito o que está implícito e vice-versa. Assim, questionamos: quão sombrias e ao mesmo tempo iluminadas tornam-se as margens do Rhein de Poe, cujas águas não alcançarão mais os sonhos indeléveis do seu narrador nas profundezas de um quarto de castelo inglês, embora nele jamais deixarão de fluir, como as palavras que almejam o status da Arte Maior, em busca da vida que vale a pena ser vivida?

Há no meio desse caminho, contudo, como diria Carlos Drummond, uma pedra, aliás, muito pior que isso, há um verme, do tipo vencedor, que faz calar cantos de sereias, o lamento da poesia, a ardência da paixão, a vontade representada pela vida. Como vencer o verme que habita dentro do próprio homem, à espreita de que a morte vença a vida? Alienando-se, antes da batalha, nas drogas que libertam a mente, mesmo pelo aprisionamento do corpo, dentre elas o ópio, cujo uso era legal na época em que o conto Ligéia foi escrito?

Para nos orientar nestas reflexões sobre o gênero fantástico, recorremos mais uma vez a Todorov, desta vez às páginas 30 e 31 de Introdução à Literatura Fantástica.

“A ambiguidade se mantém até o fim da aventura: realidade ou sonho? Verdade ou ilusão? Somos assim transportados ao âmago do fantástico. Num mundo que é exatamente o nosso, aquele que conhecemos, sem diabos, sílfides nem vampiros, produz-se um acontecimento que não pode ser explicado pelas leis deste mesmo mundo familiar. Aquele que o percebe deve opotar por uma das duas soluções possíveis: ou se trata de uma ilusão dos sentidos, de um produto da imaginação e nesse caso as leis do mundo continuam a ser o que são; ou então o acontecimento realmente ocorreu, é parte integrante da realidade, mas nesse caso esta realidade é regida por leis desconhecidas para nós. […] O fantástico ocorre nesta incerteza (…)”

A intervenção do sobrenatural no conto Ligeia é prenunciada pela própria protagonista, cujo canto, como de uma sereia, profetiza, em versos, ao pé do ouvido do narrador, seu amado, a aproximação da ameaça contra a qual ela lutará, mesmo em morte.

O poema, do qual não faremos a análise por ora, interrompe a narrativa em prosa, compondo-se de 40 versos, dado que, em verdade, sua 41ª linha é, quando a leitura é feita de trás para frente, a primeira, portanto, seu título: The conqueror worm (O verme vencedor). Segue, abaixo, sob tradução de Oscar Mendes e Milton Amado.

VÊDE! é noite de gala, hoje, nestes

        anos últimos e desolados!

Turbas de anjos alados, em vestes

        de gaze, olhos em pranto banhados,

vêm sentar-se no teatro, onde há um drama

        singular, de esperança e agonia;

e, ritmada, uma orquestra derrama

        das esferas a doce harmonia.

Bem à imagem do Altíssimo feitos,

        os atôres, em voz baixa e amena,

murmurando, esvoaçam na cena;

        são de títeres, só, seus trejeitos,

sob o império de sêres informes,

        dos quais cada um a cena retraça

a seu gôsto, com as asas enormes

        esparzindo invisível Desgraça!

Certo, o drama confuso já não

        poderá ser um dia olvidado,

com o espectro a fugir, sempre em vão

        pela turba furiosa acossado,

numa ronda sem fim, que regressa

        incessante, ao lugar da partida;

e há Loucura, e há Pecado, e é tecida

        de terror tôda a intriga da peça!

Mas, olhai! No tropel dos atôres

        uma forma se arasta e insinua!

Vem, sangrenta, a enroscar-se, da nua

        e êrma cenam junto aos bastidores…

A enroscar-se… Um a um, cai, exangue,

        cada ator, que êsse monstro devora.

E soluçam os anjos – que é sangue,

        sangue humano, o que as fauces lhe cora!

E se apagam as luzes! Violenta,

        a cortina, funérea mortalha,

sôbre os trêmulos corpos se espalha,

        ao tombar, com rugir de tormenta.

Mas os anjos, que espantos consomem,

        já sem véus, a chorar, vêm depor

que êsse drama, tão tétrico, é “O Homem”

        e o herói da tragédia de horror

        é o Verme Vencedor.

No conto, os versos surgem como poema composto por Ligéia dias antes da sua morte. Com o mesmo título, ele também integra, porém, individualmente, o conjunto da obra poética de Edgar Allan Poe.

Conclusão

Não há obviedades em Edgar Allan Poe. Há linearidade para que a estabilidade sirva de fio condutor para o rompimento com o estático, o comum, o comezinho, o ordinário, o lugar-comum, o ser vulgar. A literatura, para Poe, pode ser bouquet de flores para vasos dilacerados, prontos para serem reconstituídos ao sabor da criatividade humana; pode ser arma assassina para restaurar o humanismo morto por suicídio coletivo. Vai do real para o irreal. Do irreal para o real. Sem cerimônia – ou exacerbando em solenidades profanas e religiosas –, porque é… literatura sob os cânones da Arte Maior.

Ligéia ergue-se da sua cama para ressuscitar pela força da vontade da literatura, do fazer poético, do ideal poético de Poe.

Seja qual for o século, Ligéia, como indicia Poe, sempre poderá ter sua ressurreição desmascarada – para uma única pessoa, para um grupo de pessoas, para um autor, para um espectro, isto não importa. O relevante é ter vontade de ter vontade para saber e conhecer Ligeia; para vê-la se reeguer por si mesma; para se reerguer a si mesmo, independentemente dos limites intelectuais, éticos e emocionais de cada um de nós.

O eterno retorno de Ligeia é o ewige wiederkunft de Friedrich Nietzsche? Talvez. Assim como também é der wille zur macht, vontade de poder ou de potência, explicitado como simplesmente: necessidade.

Qual é a sua, a minha, a nossa necessidade no ontem, no hoje, no amanhã e qual é o grau da potência da nossa vontade para supri-la?

A resposta que podemos dar à pergunta pertence ao universo do real ou do sobrenatural? Encontra-se na Terra ou numa constelação longíqua, como Lyra? Encontra-se nos livros de ciência, de filosofia, de religião, de literatura ou no fundo das nossas almas, das nossas consciências?

Je ne sais quoi. Não é fantástico?

Bibliografia

ANDRADE, Mirian. O destino errante de Paraíso Perdido, de John Milton, no conto Nunca aposte sua cabeça com o diabo, de Edgar Allan Poe. In: ROSSI, Aparecido Donizete e SÁ, Luiz Fernando Ferreira. O gótico e suas intersecções teórico-críticas. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2014.

BAUDELAIRE, Charles. O homem e a obra. In: POE, Edgar Allan. Ligéia. In: Ficcão Completa, Poesia & Ensaios. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1997.

DIDIER, Béatrice. Dictionnaire universel des littératures. Paris: Presses Universitaires de France, 1994.

MAUTER, Thomas. Dicionário de Filosofia. Lisboa: Edições 70, 2010.

POE, Edgar Allan. Ligéia. In: Ficcão Completa, Poesia & Ensaios. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1997.

POE, Edgar Allan. Ligeia. Los Altos (Califórnia): Shmoop University, 2010.

TODOROV, Tzvetan. As Estruturas Narrativas. São Paulo: Editora Perspectiva, 1970, 2ª ed.

TODOROV, Tzvetan. Intodução à Literatura Fantástica. São Paulo: Editora Perspectiva, 1992.

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