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Enunciação e enunciado no poema 6 de Biografia do orvalho, de Manoel de Barros

Biografia do orvalho[1]

6

Caracol é uma casa que se anda

E a lesmaı é um ser que se reside

ı A fim de percorrer uma lesma desde o seu nascer até sua extinção, terei que aprender como é que ela recebe as manhãs, como é que ela anoitece. Terei de saber como é que ela reage ao sol, às chuvas, aos escuros, ao abismo, ao alarme dos papagaios. Vou ter que encostar meu ventre no chão para o devido rastejo. Terei que produzir em mim a gosma dela a fim de lubrificar os caminhos da terra. Para percorrer uma lesma terei de exercitar o esterco com lubricidade. Terei de aprender a marcar com a minha saliva o chão dos poemas. E terei que aprender por final a arte de ser invadido ao mesmo tempo pelo orvalho e pela espuma dos sapos.

A lesma sabe de cor o lugar da manhã que se abre primeiro.

Análise das categorias de enunciação

 No poema acima, ao aplicarmos em análise as teorias de José Luiz Fiorin sobre enunciação, identificamos que nos dois primeiros versos, os quais aparentemente sugerem ser, por estratégia linguística do poeta, começo, meio e fim da mensagem poética, as marcas da enunciação estão apagadas.

Os dois primeiros versos são, portanto, enunciado enunciado e texto enuncivo.

Não observamos a presença do enunciador no texto, ou seja, do “eu”. Assim, o enunciador (o narrador poeta), ao se dirigir ao enunciatário (o leitor, o tu), cria um efeito de verdade conferido ao significado do que está sendo dito, de modo que esse conteúdo não seja compreendido como opinião individual, mas sim como um fato verídico, passível de ser entendido como uma premissa.

O tempo verbal do verbo ser nos dois primeiros versos é o presente gnômico (presente omnitemporal), empregado para enunciar, como afirma Fiorin, “verdades eternas ou que se pretendem como tais. Por isso, é a forma verbal mais utilizada pela ciência, pela religião, pela sabedoria popular (máximas e provérbios)”.[2]

Nesse jogo poético, criado com o apagamento das marcas da enunciação e o emprego do verbo no presente gnômico, o enunciador confere à frase “caracol é uma casa que se anda” um efeito de veracidade similar aos dos textos científicos. Todavia, como o conteúdo do enunciado não é verdadeiramente fruto de uma pesquisa científica, não é um texto de ciência, percebemos que se trata de uma brincadeira em tom quase infantil, que também pode ser lida com tom de ironia.

O poeta demonstra, portanto, astúcia na enunciação ao compor um enunciado que se reveste, ironicamente, de caráter científico pelo apagamento das marcas da enunciação e pelo uso do presente gnômico para enunciar uma verdade sobre caracóis e lesmas.

O molusco caracol ganha significado de casa, o que pode ser aceito pelo leitor como metáfora, em razão do animal poder permanecer escondido ou abrigado sobre a concha que compõe seu corpo. E essa casa, como informado pelo narrador poeta, “se anda”, ou seja, move a si mesma pela figura de linguagem criada. Em vez de dizer que o caracol anda protegido pela sua concha como se esta fosse uma casa móvel, o narrador, sob marca da enunciação apagada, simplesmeste chama ao caracol de casa.

No segundo verso, “e a lesmaı é um ser que se reside”, também sem marcação da enunciação (portanto, enunciado enunciado e texto enuncivo), o molusco é definido como um ser que, por ter sua “própria casa”, a concha embutida ao corpo, reside em si mesmo, reforçando-se assim a ideia de que a concha é uma casa no sentido denotativo que outorgamos a ela pelo dicionário da língua portuguesa, mas que pode ir além pelo sentido conotativo se pensarmos que a casa pode ser arquitetada e construída não somente como objeto exterior ao ser, mas também como parte integrante do ser, como o espaço interior no qual o ser se resguarda das impressões exteriores.

Assim, o enunciador poeta cria, pela metáfora, uma definição de moradia para o animalzinho provida pela natureza, que dá total autonomia para um gênero de molusco, os caracóis, e busca convencer o enunciatário, com ênfase pelo apagar das marcas da enunciação e uso do presente gnômico, de que essa premissa tem sentido real ou científico. Desse modo, o enunciador também prepara o enunciatário para o enunciado seguinte, no qual, ao contrário, identificamos claramente as marcas da enunciação.

Exatamente na palavra “lesma”, por meio de uma nota de rodapé inserida ao verso por escrito – a grafia do texto é, inclusive, graciosa porque o número 1 pequenino ali colocado lembra esteticamente a concha do caracol, assim como o número 6 que dá título ao poema –, o enunciador reforça ainda mais o caráter de texto científico que deseja conferir ao texto.

A nota de rodapé ou anotação inserida pelo narrador poeta surge como uma estratégia que nos lembra a poesia concreta por fazer uso de um elemento visual explorador do espaço do suporte utilizado – a página impressa ou a tela de computador – com a intenção de expandir os limites dos versos como unidades rítmicas e formais da linguagem escrita.

No primeiro parágrafo do enunciado da nota de rodapé, que o enunciador “finge” não fazer parte do poema pela estratégia gráfica e linguística, as marcas da enunciação são claramente identificadas pelo surgimento de um “eu narrador” que se dirige ao enunciatário, um “tu leitor”. Trata-se, portanto, de enunciação enunciada e texto enunciativo.

Por operação de debreagem, o enunciador projeta no primeiro parágrafo do enunciado da nota de rodapé a categoria pessoa da enunciação: o “eu poeta narrador”. Trata-se de uma debragem enunciativa que instala os actantes da enunciação (eu/tu). O eu poeta narrador dirige-se ao narratário (o tu leitor) para informar “coisas” que terá de fazer no futuro, ações que devem ser realizadas para que ele possa conhecer com profundidade os pormenores da vida de uma lesma, desde o seu nascimento até o fim de sua existência.

Essa debreagem enunciativa cria efeitos de subjetividade no enunciado do poema. Com isso, nesse primeiro parágrafo da nota de rodapé, o revestimento de caráter científico do texto apresentado nos dois primeiros versos é alterado para um revestimento de caráter de informalidade e busca de intimidade com o narratário leitor. O enunciado não é uma carta pessoal nem um texto autobiográfico mas, por astúcia da enunciação, tem instaurado efeito similar quando o eu narrador se dirige ao tu leitor (“Terei que aprender […] Vou ter que encostar […]”).

O tempo do verbo deixa de ser, no primeiro parágrafo da nota de rodapé, o presente gnômico, como vimos nos dois primeiros versos. Nesse trecho do enunciado não há concomitância entre o momento da enunciação (MR presente) e o momento do tempo linguístico utilizado pelo narrador poeta (seis vezes o futuro do presente simples do modo indicativo do verbo ter e uma vez o presente do indicativo do verbo ir para indicar ação a ser realizada no futuro).

A enunciação projeta uma marca de posteridade do momento do acontecimento em relação ao momento de referência presente: o eu narrador poeta se dirige ao tu narratário leitor, sem apagamento das marcas da enunciação, para lhe falar sobre algo a ser feito no futuro para que se compreenda melhor o presente (no caso, o presente gnômico da lesma). Diz, por exemplo, o eu narratário poeta: “Para percorrer uma lesma terei de exercitar o esterco com lubricidade”.

Nesta parte do poema, percebemos que o narrador poeta faz uso de um tom lírico, em versos livres, onde compara as ações cotidianas do ser humano, tomando a si mesmo como exemplo, com as ações corriqueiras de uma lesma que, como todo homem, nasce, vive e morre. Conforme demonstram metaforicamente os versos, ambos têm de acordar e dormir diariamente; locomovem-se sob sol ou chuva; são atingidos e influenciados pela natureza e por outros seres ao seu redor; devem demonstrar agilidade e astúcia em seus movimentos em defesa da sobrevivência.

O narrador aponta, sutilmente, porém, uma diferença crucial entre a lesma e o ser humano quase no fim do poema, quando afirma: “Terei de aprender a marcar com a minha saliva o chão dos poemas”. A lesma do caracol não fala, não escreve, não tem intelecto. É somente um molusco. O homem, ao contrário, tem capacidade intelectual. E o “eu narratário” deste enunciado, empregando o verbo “ter” no futuro do presente do indicativo, revela que tem necessidade de produzir textos, de se dedicar à composição de poemas. Mais que isso: que precisa saber usar a saliva, portanto, a língua e a boca na produção dos seus poemas nos quais, metaforicamente, deseja projetar as marcas de sua enunciação. O enunciador conclui ainda, em sua mensagem poética, que o fazer da poesia engloba não somente o saber linguístico – ler e escrever, ou seja, o saber formal. “E terei que aprender por final a arte de ser invadido ao mesmo tempo pelo orvalho e pela espuma dos sapos” embute, metaforicamente, as sensações e sentimentos aos quais o narrador poeta precisará estar exposto e expor em seus enunciados se quiser compor versos que digam algo relevante sobre a natureza para seus leitores. Mesmo que a relevância dos textos dos poemas não esteja associada à relevância dos textos científicos.

O segundo e último parágrafo da nota de rodapé do poema é novamente um texto enuncivo, ou seja, não há nesse verso livre marcas da enunciação. Assim, ao finalizar o poema, o enunciador voltar a travestir seu enunciado de texto científico, mais uma vez adotando o presente gnômico e usando uma metáfora para informar ao enunciatário, com efeito de verdade, que é muito fácil para qualquer lesma, em busca de sobrevivência, encontrar o local mais adequado para tirar a cabeça da concha e apreciar o sol ou a chuva, em busca de alimento e conforto natural.

Implicitamente, essa última frase leva o enunciatário a refletir sobre o ser humano que quer fazer poesia, como o eu narrador desse poema projetado no enunciado enunciativo da nota de rodapé. E uma das hipóteses para dar continuidade à reflexão (sugestão para que o narratário leitor crie suas próprias “anotações” de leitura) sobre o tema proposto no poema como um todo pode ser resumida numa pergunta: onde e por onde podemos começar?

Bibliografia

BARROS, Manoel de. Biografia do orvalho. In: Retrato do artista quando coisa. In: Poesia Completa. São Paulo: LeYa, 2013, p. 345.

FIORIN, José Luiz. As astúcias da enunciação. São Paulo: Ática, 1996.

[1] BARROS, Manoel de. Biografia do orvalho. In: Retrato do artista quando coisa. In: Poesia Completa. São Paulo: LeYa, 2013, p. 345.

[2] FIORIN, José Luiz. As astúcias da enunciação. São Paulo: Ática, 1996, p. 151.

Ensaio para a disciplina “Estudos do texto e do discurso: fundamentos teóricos, diferentes perspectivas, desenvolvimento atuais e situação no Brasil”, ministrada pelo Dr. Prof. José Gaston Hilgert, no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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