Por que falar em público o que não é público?

“Os problemas filosóficos surgem quando a linguagem sai de férias”, cunhou Ludwig Wittgenstein, por volta de 1953, em suas Investigações Filosóficas. O que isso significa? Os estudiosos da linguística dirão que o raciocínio se deve ao fato da linguagem não existir somente como veículo de informações, mas, sim, ser algo intrínseco ao contexto social e às aspirações humanas. Ora, sejamos mais bem humorados na compreensão da “linguagem” do austríaco: ninguém “filosofa” profundamente se não houver silêncio. Consequentemente, o Brasil, em meio à pandemia de Coranavírus, mostra-se absolutamente infilosófico.

Estou trolando, óbvio, mas o que fazem, afinal de contas, todos esses novos não normais cidadãos encarnados, de uma hora para outra, em peles fantasiosas de jornalistas, professores e atores a tagarelarem nas lives que poluem os céus do Cruzeiro do Sul? Eles falam, sem parar, o que nos faz duvidarmos se pensam antes, durante e depois sobre o público e o não público. Não, não é somente o presidente Jair Bolsonaro que não sabe o que diz, ou talvez não saiba o que pensa, ou vale o vice com ou sem o que versa.

Observo, na maioria das vezes sem dizer nada, pois me constrange tentar falar ao mesmo tempo que tem tanta gente falando, que muitos profissionais, ao serem obrigados a levarem o trabalho para casa, decidiram compartilhar seus feitos rotineiros em público, simplesmente para compartilhar alguma coisa, e até talvez pensando que, assim, estão de fato mostrando serviço para quem lhes paga, patrocina ou apoia. Não é?

Se o leitor tiver tempo sobrando e nenhuma live em sua agenda no momento, ao refletir comigo concluirá que tem visto e ouvido coisas que jamais pensou ver e ouvir antes, afinal, esses pseudos antes normais e agora ditos “sei lá” não se orgulham mais de suas reuniões fechadas. Não, senhor. Agora podemos participar, todos, das mais profundas análises sobre o trabalho dos outros e até sobre o nada que pensam sobre tudo. Parece mesmo que o que importa é não deixar um vácuo para que a filosofia penetre com seus pensamentos herméticos, cheia de malmequeres (ai, tão lindos!), querendo questionar o motivo dessas produções de vídeos bizarras que, antes da pandemia, custavam “os tubos” e jamais penetrariam, com essa qualidade pífia com a qual têm sido apresentados, em telinhas globais.

É fantástica a quantidade do dito pelo não dito em circulação que faz revistas e jornais de grande porte, impacto e poder de influência no passado recente serem vistos – na conjuntura da linguagem explícita que usamos para nos fazer ser o que não somos por ora – como meros coadjuvantes das lives de todos nós. E amanhã, hein? Como será quando, vacinados contra a infilosofia à qual andamos sucumbindo por medo de pensarmos sozinhos, tantos “jornalistas voluntários” precisarem dos veículos de imprensa feitos sem voz para gritarem por eles, senão em defesa dos direitos humanos, pelo êxito das seções dos classificados de empregos ou dos artigos dos classificados para terem empregos? 🙂

E os “coitados” dos professores, enlivados até os pescoços, inclusive em seus congressos, com cachorros latindo e gatos miando ao fundo, agora sem nada mais a dizer para os anteriores normais alunos, hoje denominados “sei lá”, já que a democracia “fortalecida” (olha o paradoxo) pela pandemia exige a palavra compartilhada com quem tem qualquer outra coisa também para “ensinar”, mesmo fora de um plano de aula? Ser visto, ser ouvido, ser importante para si mesmo justifica falar em público o que sempre se supôs privado, exceto nas tragédias e comédias de erro de Shakespeare?

Cuidado aí ao refletir sobre esse privado. Primeiro, porque o austríaco da nossa citação já dizia que linguagem privada inexiste, pois linguagem não o é. Noves fora Guimarães Rosa, não tente essa vereda. Estamos no raso. 🙂  Ora, ora, se a linguagem não existe no privado, morta a linguagam, e o sujeito, por mais normal ou anormal que o seja, também se dá por morto. Vai daí, então, ler o que estão escrevendo, em chats “privados”, os aluninhos brasileiros, quando os “bobos” dos professores resolvem caçar, nas lives, a palavra somente para si até o pescoço. Que susto, meu Deus! Li, sem querer, por causa do aplicativo replicado, por segurança. Coloquei o meu de castigo. Agora, imagine, uma criança em quarentena, praticamente um castigo imposto por Deus, escorregar também para o castigo de uma mãe, espiã de lives, indignada com tamanha “sordidez” dos adolescentes…

Volta aos meus ouvidos o Sr. Wittgenstein e, sem folga para uma expressão mais descontraída, digamos, do meu ego nesse novo “sei lá”, sopra de um fôlego só: “sobre o que não se pode falar, deve-se calar”. Escutou? Mas vai fingir que não, né? Tão gostoso fazer live para fingir que se está vivendo a vida como ela é, do jeitinho que Nelson Rodrigues gosta. Depois a gente vê como fica essa coisa de cada coisa em seu lugar pra não grudar caca de cachorro na sola. Nem tá fedendo ainda!

Gisele Centenaro (gisele@about.com.br) é jornalista, pedagoga, gestora escolar, mestre em Letras e publisher da About Magazine.

Vale a pena ler também:

https://seer.ufrgs.br/cena/article/viewFile/74379/47442

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