Estudo demonstra que população negra brasileira consome R$ 1,9 trilhões anualmente

Segundo levantamento do Instituto Locomotiva, realizado sob encomenda da Central Única das Favelas (CUFA), a população determinada como negra no Brasil, a qual engloba as denominações pretos e pardos, responde por 40% do total de consumo do país anualmente, isto é, cerca de R$ 1,9 trilhões.

Na opinião de Alexandra Loras, mulher preta, ex-consulesa francesa e uma das principais ativistas na luta contra o racismo no Brasil e no mundo, essa grande parcela da população é, explicitamente, fonte de lucro para marcas, empresas e serviços, portanto, também tem de ser prioritariamente considerada nas definições de gostos, preferências e estratégias de comunicação publicitária.

“Percebemos que este valor, pra lá de expressivo e uma fonte de lucro certeira, é deixado de lado em detrimento ao racismo estrutural, que leva a maioria das empresas a direcionar seus negócios somente às pessoas brancas, como se o poder de compra fosse exclusivo delas”, afirma Loras.

No Brasil, 118,9 milhões de pessoas se declaram pretas ou pardas, uma maioria de 56% da população. Juntas, sendo responsáveis por 40% do que é comprado no país, elas alicerçam o afroconsumo. Esta maioria, porém, não é refletida nem nas empresas, nem no mercado de trabalho, de acordo com análises socioecômicas e socioculturais.

“É fundamental que as marcas posicionem seus produtos, serviços e campanhas de marketing também para este público, para que possam, também, se beneficiar”, enfatiza a ex-consulesa, acrescentando: “É dever das empresas representarem a verdadeira população brasileira, a qual é diversa. As empresas preferem ser racistas a serem capitalistas, conversando só com uma parte da população. Elas perdem, ainda, oportunidades de inclusão e de reparar as consequências históricas da escravidão”.

A pesquisa também registra um índice aquém das experctativas com relação às pessoas pretas no mercado de trabalho. Dentre os profissionais pretos com mais de 18 anos, 46% afirmam, de acordo com o estudo, ter pouca ou nenhuma diversidade de raça nas empresas em que trabalham. Destes, 76% conhecem alguém que já tenha sofrido discriminação, deboche ou humilhação pela cor ou raça, dentro do ambiente de trabalho.

Alexandra Loras critica: “A política de cotas raciais permitiu um aumento de 350% de negros nas universidades brasileiras nessa última década, então negros com mestrados ou doutorados, tem milhares, mas pelo preconceitos dos RHs, muitos não conseguem ser contratados, por isso que não acredito na teoria de que falta educação para os negros acender na sociedade, precisamos preparar os ambientes corporativos a desconstruir seus vieses inconscientes”.

A questão salarial também traz em si as consequências do racismo estrutural: a população negra ganha cerca de 76% a menos, em média, do que a população não-negra (R$ 3.100,00 x R$ 1.764,00). Para completar, dentre os cargos de chefia ocupados por pessoas negras, a situação também é alarmante. Somente 10% trabalham com uma pessoa negra entre os cargos máximos da empresa.

Mesmo entre os negros com ensino superior completo, a renda média é 32% menor em comparação aos não negros: R$ 4.990,00 x R$ 7.296,00. Dentre as mulheres, a porcentagem é semelhante, 33%, e ainda aponta uma discrepância em detrimento aos salários para os homens: são R$ 4. 566,00 para as não-negras e R$ 3.067,00 para as negras.

“O Brasil é a nona economia mundial. A maioria dos países do G20 tem um salário mínimo entre R$ 4 mil e R$ 8 mil por mês. Como integrante do G20, podemos considerar o Brasil como um dos mais ricos do mundo. Há necessidade urgente de o país dar um pulo quântico, dar dignidade econômica para estimular a economia do país. 80% dos lares brasileiros ganham em torno de R$ 3 mil por mês, a desigualdade e concentração de renda precisam ser o maior foco dessa década para transformar a sociedade de forma mais igualitária”, adverte Loras.

 A pesquisa, realizada entre os dias 4 e 5 junho de 2020, entrevistou 3.111 pessoas, entre homens e mulheres de 16 a 69 anos, das classes A, B, C, D e E, em todos os estados brasileiros. A investigação abordou ainda temas relacionados ao racismo e naturalização do preconceito e o impacto do racismo na recente pandemia de Covid-19 (coronavírus). A pesquisa completa está disponível diretamente neste link

Sobre Alexandra Loras

Alexandra Baldeh Loras é consultora em Gestão de Performance e Mudança Organizacional. Desenvolveu um programa de capacitação para que mulheres e afrodescendentes possam subir na alta liderança das empresas.

Mestra em Gestão de Mídia pela Sciences Po (Paris), foi consulesa da França em São Paulo e é fundadora do Fórum Protagonismo Feminino, consultora de empresas e palestrante sobre raça, gênero e diversidade.

Seu trabalho é focado no desenvolvimento de liderança consciente para catalisar a transformação organizacional sobre diversidade étnico-racial e empoderamento feminino.

Ela já conduziu palestras para mais de 20 mil pessoas em todo o mundo, desde eventos como TEDxSãoPaulo até grandes organizações internacionais como Google, JP Morgan e Facebook.

Atualmente Alexandra Loras escreve um blog sobre a dignidade negra no Instagram (@alexandraloras) e é embaixadora da “AfroeducAção”, do Plano de Menina e das Meias do Bem.

Fonte: Sylvio Novelli e Fausto Cabral, da Sylvio Novelli Assessoria em Comunicação | (GC)

 

Follow About Magazine on WordPress.com

Donation

Media support

For the good journalism

R$5,00

Sobre gcentenaro (780 artigos)
About Magazine's Publisher
%d blogueiros gostam disto: