Inédito, o último artigo de Rafael Sampaio: “Será que vamos aprender a trabalhar à distância?”

Em 1º de abril, Rafael Sampaio escreveu este artigo para publicarmos aqui na About Magazine. Mas, eu não publiquei. Não sei explicar exatamente o porquê. Diante do sofrimento do mundo atingido pela pandemia de Coronavírus, ao reorganizar meu tempo em casa, com meu filho e meu marido, algumas atividades se tornaram prioritárias e, toda vez que eu sentava para fazer as atualizações das notícias nesta About, uma tristeza tão grande invadia meu ser que, minutos depois, eu passava a considerar que nada era mais importante do que a cobertura da mídia dedicada à prevenção do contágio, às ações solidárias, ao trabalho dos médicos e cientistas, ao socorro daqueles que se tornaram vítimas da doença ou da dor pela perda de pessoas amadas…

Não publiquei, porém, o artigo permanece up-to-date e, como sempre, profissionalíssimo, relevante e revelador da importância histórica do trabalho realizado por Rafael Sampaio, meu mestre, meu melhor amigo e meu parceiro ao longo dos últimos 39 anos.

Publico agora que o temos, eu e nosso filho Gabriel, à distância dos olhos e dos nossos abraços, mas eternamente em nossas mentes e em nossos corações.

Gisele Centenaro

Na última coluna, abordei a questão se teria sentido continuar anunciando e prometi falar sobre se iremos aproveitar para aprender a trabalhar à distância. Pois apesar de toda a onda de home office e da tecnologia disponível, ainda estamos longe disso.

Quando muitas empresas começaram a estruturar suas operações à distância, com seus colaboradores em suas casas, elas se deram conta que o esquema de home office na prática só estava funcional para alguns poucos dirigentes e a grande maioria das pessoas não tinha nem computadores, nem acesso adequado à internet, nem mesmo local adequado para montar seu esquema de trabalho.

Até mesmo as licenças de softwares não estavam previstas na quantidade adequada para diversas atividades absolutamente essenciais para essa operação à distância. Foi uma correria e muitos gargalos a serem superados.

Quem sabe depois que a crise acabar essa situação mude de forma radical. Não apenas em termos de infraestrutura, mas de sistemas e processos. Afinal, para que o home office ocorra para valer, ele precisa estar previsto nos esquemas de trabalho, nas rotinas, nos mecanismos de controle e até em termos da legislação trabalhista aplicável – sem mencionar o óbvio, que é a responsabilidade e a disciplina dos colaboradores.

Quem sabe se as pessoas aprendam a reduzir a abrangência, frequência e quantidade de envolvidos nas muitas – e, às vezes, intermináveis e inconclusivas – reuniões. Inclusive porque muitos dos que são chamados, ou se oferecem, a participar de reuniões são perfeitamente dispensáveis e sua contribuição poderia ser substituída pelo acompanhamento à distância, um canal de comunicação e, muitas vezes, um simples email ou reporte – enxuto, evidentemente.

Outro ponto importante é a própria redução das necessidades de transporte, coletivo, semicoletivo/individual e até individual. Seja em número de viagens, seja reduzindo os horários de pico, que estressam a malha de circulação das cidades e geram uma imensidão de tempo simplesmente desperdiçado e inútil.

Por que não organizar um sistema misto, no qual as pessoas trabalhem de casa algumas horas por dia e até alguns dias por semana? Por que não organizar entradas e saídas móveis, para reduzir o processo de rush de circulação de todos nas mesmas horas e lugares, inclusive estendendo o horário de abertura de escritórios e outras instalações?

Se esse objetivo for alcançado, talvez se possa até reduzir a estrutura física das empresas, criando espaços a serem compartilhados, diminuindo a “posse exclusiva” de salas, mesas, cadeiras e até equipamentos.

Poderá haver, até, uma redução na quantidade e duração das viagens empresariais, muitas delas resquícios do passado, como sabemos.

No final, vamos melhorar tanto a eficiência operacional, como sua eficácia, eliminando tarefas e atividades pouco úteis para melhorar os resultados das organizações.

Não será um resultado automático, mas um caminho para essa busca de eficiência/eficácia, inclusive eliminando ações muito bem feitas mas que, no fundo, são absolutamente inúteis para cumprir os objetivos das organizações.

Rafael Sampaio foi vice-presidente executivo da Aba – Associação Brasileira de Anunciantes, sócio-fundador das revistas Briefing e About, colunista de O Globo, colunista da revista CartaCapital, articulista de dezenas de jornais diários e semanais brasileiros, consultor em marketing e publicidade, palestrante, jornalista e autor dos livros Propaganda de A a Z e Planejamento de Marketing – Conhecer, Decidir e Agir. Faleceu em 12 de junho de 2020, em sua residência, deixando a esposa Gisele Centenaro, 59 anos, e o filho Gabriel Centenaro Sampaio Neuville, 13 anos.

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

About_Donation

Follow About Magazine on WordPress.com

Donation

Media support

For the good journalism

R$5,00

Sobre gcentenaro (839 artigos)
About Magazine's Publisher
%d blogueiros gostam disto: