Alma complexa, compleição simplíssima: “nada substitui o repórter”

O consagrado jornalista investigativo brasileiro Roberto Cabrini,  atualmente apresentador e editor chefe do Conexão Repórter, exibido pelo SBT, está lançando, pela Editora Planeta, o livro No rastro da notícia, no qual relata os bastidores de grandes reportagens, servindo de inspiração e exemplo não somente para estudantes e apaixonados pela atividade de jornalismo, mas para todos os cidadãos que perseveram nas trilhas da ética, do humanismo e do profissionalismo em suas relações sociais e na busca pela autorrealização.

cabri2Nascido em Piracicaba, no interior de São Paulo, Francisco Roberto Cabrini mergulhou no jornalismo antes mesmo de passar da fase de adolescente para a adulta: com 16 anos ele já trabalhava para uma emissora de rádio e jornais locais; aos 17, foi contratado pela Rede Globo como repórter para todos os seus telejornais. Nunca mais parou de correr atrás da notícia  – mesmo quando encurralado por quatro paredes –, o que o levou a conquistar todos os prêmios importantes do setor, destacando-se dentre eles Esso, Comunique-se, APCA, Líbero Badaró, Imprensa, Tim Lopes, MPT, República e Vladimir Herzog, atuando, além da TV Globo, na Bandeirantes, na Record e no SBT.

Como correspondente internacional durante oito anos, quatro deles em Londres e outros quatro em New York, Cabrini alçou voos para fazer coberturas em mais de 70 países. Foram cinco Olimpíadas e seis conflitos internacionais: Afeganistão, Iraque, Israel/Palestina, Camboja, Caxemira e Somália.

Sobre ele, afirma a colega jornalista Ana Paula Padrão, na primeira orelha do novo livro: “Recordo-me de um jornalista que passava horas sentado em sua mesa olhando fixamente para um ponto qualquer. Acabei compreendendo que Cabrini não estava de fato vendo alguma coisa. Ele estava concentrado, imóvel como aquele predador pronto para o bote. Roberto Cabrini é dono de uma personalidade obstinada que encontrou no jornalismo investigativo o terreno perfeito para plantar esse talento especial”.

Caco Barcellos, outra fera do jornalismo investigativo no Brasil, destaca na contracapa da obra: “Em ‘No rastro da notícia’, ele nos leva a viver duas emoções em uma só narrativa; apresenta um elenco de personagens encantadores e, talvez, de forma involuntária, oferece o melhor caminho para se conhecer a alma complexa de Roberto Cabrini, o repórter mais popular do país”.

Hora de mandar flores para cumprimentá-lo pelo lançamento? Por que não? Afinal, como Cabrini mesmo gosta de enfatizar ao discorrer sobre o exercício da profissão de jornalista investigativo, “denunciados não mandam flores”, mas sim recados de intimidação, provocações, pressões sociais e econômicas, muitas vezes até ameaças que se estendem aos familiares dos jornalistas.

cabrilvroNo auditório Victor Civita da ESPM, em São Paulo, neste 13 de novembro último, onde participou como palestrante convidado do ESPM Soul, Cabrini compartilhou com estudantes, acadêmicos e convidados um pouco de sua experiência de vida no universo da comunicação jornalística, pelo qual navegou, ao longo de sua biografia, por meio de mais de 3.000 reportagens e 120 documentários.

Segundo ele, no nosso país estamos inseridos hoje em um cenário social conflituoso em razão de debates excessivamente polarizados, mesmo que se reconheça ser da natureza humana a tendência para a convivência com extremos em campos políticos. O alerta que faz, nesse contexto, é para que as pessoas atentem mais para as táticas de manipulação que provocam desvios de rota pelo enuviar da realidade, lembrando que a corrupção nos dias atuais esgueira-se por todos os caminhos, não se podendo negar inclusive a existência da corrupção jornalística que, costumeiramente, é fruto de estratégias de setores econômicos e governamentais, valendo-se da informação como moeda de troca para conquistar poderes de influência e até atingir fins ilícitos.

Todavia, se a profissão do jornalismo exige valores inegociáveis, norteados por princípios filosóficos que remontam à Grécia Antiga – alguns de compreensão fácil e rápida, como podemos apreender pela frase “se não sabe escutar, não sabe falar”, cunhada por Heráclito – , essa premissa também significa que, ao lançar mão das vantagens proporcionadas pelas tecnologias de informação e comunicação na contemporaneidade, os jornalistas não podem sucumbir em face de aspectos campais excludentes de ilicitude do mundo virtual.

Em outras palavras, se a missão do jornalista continua sendo, como pontuado por Cabrini, “promover a justiça social”, esqueçamo-nos dos arautos da desgraça que preveem o fim da profissão, contradizendo-os pela necessidade de que o bom jornalista continue em luta pela defesa da democracia, pela difusão da verdade e pelo combate às fake news.

Para Cabrini, o bom jornalista dá-se ao respeito e atua profissionalmente com respeito e equilíbrio em todas as situações, mesmo porque o não revidar de provocações é ato de segurança pessoal com manutenção de integridade física e mental. Ainda assim é um combatente 24 horas por dia contra a injustiça, a autocensura, a censura e pela propagação da verdade sob todos os ângulos que a configuram.

Como combatente, para chegar à vitória, tanto pela produção das pequenas, como das grandes reportagens, exercendo seu poder de influência positivo no micro e no macrocosmo, o jornalista deve ser, na visão deste espetacular profissional brasileiro, pragmático, estratégico, inabalável, amante da narrativa dos fatos – “grandes vedetes de todas as reportagens” – e obsessivamente apaixonado por seres humanos, porque é no olho no olho que se enxerga muito mais além, técnica que justifica a alegação “cabriniense” de que, seja qual for o padrão de qualidade exigido, “nada substitui o trabalho do repórter”.

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