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Até que uma fake news os separe, o jornalista e a notícia fazem o par perfeito?

A Cision está divulgando os resultados do seu Relatório Global da Mídia de 2019, o qual levou em conta a manifestação de opiniões de 1.999 jornalistas consultados por email, sendo 731 dentre eles atuantes nos Estados Unidos; 206, no Canadá; 469, no Reino Unido; 135, na França; 133, na Alemanha; 122, na Suécia; 97, na Finlândia; 82, no México; 28, no Brasil; e 16, nos Emirados Árabes Unidos.

A pesquisa – a 10ª realizada pela empresa – contatou os entrevistados entre 5 e 27 de fevereiro último, com o propósito de identificar os mais importantes desafios enfrentados pela mídia, na visão dos jornalistas, no exercício anterior, assim como as tendências da dinâmica do setor para meses seguintes. Dentre os resultados, duas palavras-chave sintetizam a missão atual de repórteres, redatores, editores e seus colaboradores, seja qual for a plataforma de transmissão de informações e notícias: relevância e confiança.

thaisNo Brasil, o grupo norte-americano Cision é representado pela PR Newswire, uma das líderes nacionais na distribuição de conteúdo direcionado a redes de notícias, comandada por Thais Antoniolli, CEO da empresa na América Latina. Segundo a executiva, “a perda de confiança do público no trabalho da mídia ainda é muito significativa, apesar de os índices da pesquisa mostrarem os jornalistas um pouco mais otimistas em relação aos anos anteriores”. Ela acrescenta: “a polarização política, muito latente em todo o mundo, e a disseminação de fake news contribuem muito para esse cenário, infelizmente”.

Obviamente, as redes sociais – parte delas exercendo o papel de mídias sociais tanto pela concessão de espaços pagos para ações publicitárias de marcas e produtos, bem como pela difusão de notícias – destacaram-se nas conclusões do relatório mais uma vez, não somente em razão da fragmentação que geram na comunicação de massa, mesmo quando estabelecidos nichos bem segmentados de emissores e receptores de dados, mas também pela transformações de rotinas no lidar com a informação, cujas fronteiras com as áreas do entretenimento em alguns casos têm deixado de existir. Uma das consequências do design estrutural desse novo cenário á a aproximação cada vez maior das tarefas diárias de jornalistas com as dos profissionais de relações públicas, lembrando ainda que a função de conteudista continua em tendência de crescimento em todos os mercados analisados.

Afirma o estudo “a confiança se tornou um modelo de negócios” ao averiguar as metas essenciais do jornalismo em 2019. Isto significa que se já era difícil “vender” assinaturas de veículos de comunicação no passado – impressos, televisivos, digitais etc. –, a situação está ainda mais complexa na atualidade, visto que um dos tópicos de maior fluidez entre receptores e emissores das redes sociais em diálogos constantes e em tempo real é justamente a credibilidade das informações (analíticas e factuais) propagadas pelas mídias ditas tradicionais, com foco de avaliação tanto no jornalista responsável pela sua emissão, como no título do veículo ou marca da empresa de mídia que ele representa.

Os jornalistas precisam ser eficientes e críveis – assim como seus veículos – para, com empatia, impulsionarem o desejo do público para que ele pague pelas notícias disponibilizadas; por outro lado, quando questionada a credibilidade da informação, o modus operandi do jornalista a partir de suas fontes e o posicionamento da empresa de mídia, há quem diga em alto e bom som “nem de graça”, não pesando mais favoravelmente contra as críticas negativas a posição de liderança de um veículo, dada a liberdade conquistada pelo público para dizer o que pensa, a qualquer instante, sem constrangimentos, por meio de suas redes sociais.

O quarto poder já não seria, portanto, tão poderoso como desenhado até na década passada? É cedo para que essa resposta seja conclusiva, fundamentalmente porque devemos considerar que, sabedora da pressão maior exercida pelo público crítico que dispõe da liberdade ofertada no dia a dia pelas redes sociais, a imprensa tem sido cada vez mais cautelosa no tratamentos dos dados que consubstanciam a produção das notícias, agora não mais somente pensando em questões éticas sobre preservação de fontes, por exemplo, mas também em fatores como “modelos de negócios baseados em confiança”, lançando mão deles para atender, de fato, às expectativas das audiências, sejam essas expectativas inspiradas por caprichos do amadurecimento dos seres humanos (caso dos jovens em fase inicial de posicionamento como cidadãos e profissionais), sejam elas fruto das ideologias e dos ideias que movem determinado grupo social.

Em outras palavras, antes de publicarem ou “jogarem no ar” suas notícias, jornalistas agora também querem saber tudo sobre o comportamento e as aspirações do seu público, meta que, até pouco tempo atrás, era perseguida somente por profissionais de marketing – ou profissionais de relações públicas às voltas com relatórios quantitativos a somarem tabulações referenciais aos qualitativos.

Difícil, mas não impossível, a missão dos jornalistas no enfrentamento desses desafios, dentre eles a concorrência crescente das redes sociais e dos influenciados na conquista da confiança do público, poderia ser mais estratégica, em vez de tática, não fossem a falta de recursos e a diminuição do número de profissionais nas equipes das empresas de mídia consideradas tradicionais, obstáculos estes causados pelos minguados tempos da economia global desequilibrada por guerras comerciais e cambiais entre grandes potências, assim como pelas inseguranças mercadológicas das nações menos desenvolvidas, ainda pelejando contra surtos de fome, doenças, falta de saneamento básico e desemprego.

Menos dinheiro em circulação, menos investimentos, mais combates diários do que planos de conquistas delineados para médio e longo prazo. Sem falar nas fake news… Quando não “emputecem” a vida dos jornalistas na entrada da redação, no raiar do plantão com trabalho dobrado, pois é preciso provar “o que não é” antes do tempo necessário às narrativas “do que é”, as fakes news “fedem” na saída para casa, no fim da jornada, surgindo para contrariar verdades ditas no agorinha e impedirem boas noites de sono, afinal, os fatos noticiados e contrariados por elas requererão, no dia seguinte, mais tempo de proposição, produção e contestação antes do arregaçar das mangas para as news news do dia.

Na visão da presidente da PR Newswire na América Latina, Thais Antoniolli, é necessário que ocorra uma mudança na postura das pessoas nas redes sociais com relação às fake news. “As pessoas compartilham informações no impulso, não pensam muito antes de disseminar informações que recebem e, mais grave ainda, não checam a veracidade delas”, sintetiza.

Mas, o que querem, afinal, os jornalistas, além de mais segurança pelo saber do que querem suas audiências antes do carimbo “publique-se”, de modo a amainar críticas negativas e estabelecer mais relação de confiança com o público, conforme averiguado pelo estudo da Cision?

Jornalistas querem – e devem – ser relevantes. Consequentemente, querem que profissionais de relações públicas, ao atuarem como seus parceiros, sejam relevantes em suas propostas. Ah, mas quem não sabia disso? Irrelevantes nunca passaram do “cesto” seção… Sim, mas, agora, mede-se relevância também pela potência do impacto da notícia, pois, conforme dito anteriormente, mais do que nunca é preciso dizer – doa ao jornalista que doer – aquilo que o povo quer ouvir ou ler, ou, no mínimo, é preciso “dar” a notícia do jeito que o público quer ouvir ou ler para suavizar a contrariedade provocada pela notícia que não lhe agrada.

Porque o quê, o quem, o quando, o onde, o como e o por quê sem impacto fazem qualquer replicante virar pato. 🙂 E ninguém quer ser pato em tempos de redes e mídias sociais – ora, senão Shakespeare, nem Romeus e Julietas, em alta anda mesmo o rouxinol, nem tanto pela melodiosa voz e afinidades com poetas, mas, com toda certeza, pela sua persistência em estar diariamente onde deve estar, sendo exatamente quem ele deve ser ao anunciar boas ou más novas, na tristeza e na alegria, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias das nossas vidas, sem que nenhuma fake news nos separe.

Fonte: Carolina Cardoso – Pitchcom Comunicação| (GC)

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