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A música importa. E o ambiente ao seu redor também. | By Eduardo Panozzo e Rafael Achutti

A música é influenciada pelo local de onde vem, e o inverso também acontece: ela é capaz de influenciar totalmente nossa percepção sobre determinado ambiente.

Por que o ser humano cria músicas, afinal?

Alguns dizem que é para exorcizar seus demônios, colocar para fora aqueles sentimentos que não cabem mais no peito, seja ódio ou amor.

Ao imaginar o momento da criação, o mais comum é pensar no artista que, do nada, fica com um olhar estranho e começa a rabiscar freneticamente até que uma obra prima, que não poderia existir de nenhuma outra forma, venha ao mundo.

De dentro pra fora. Assim, de repente.

Essa é ideia romântica que se tem sobre como o trabalho criativo acontece, mas há quem acredite que a verdade seja completamente diferente. “Oportunidade e disponibilidade são, frequentemente, as mães da invenção.” A frase é de David Byrne, músico conhecido por ter fundado a banda Talking Heads e escritor do livro How Music Works. Logo no início do livro ele defende a sua teoria sobre como a música e o contexto onde ela é criada (e onde é executada) estão absolutamente conectados.

Essa teoria afirma que a música, e outros tipos de arte, nascem de certa forma “moldados” às características do contexto ao qual pertencem e não surgem somente de dentro do artista, assim de repente, como muita gente imagina.

Byrne constata: “De certo modo, trabalhamos ao contrário, consciente ou inconscientemente, criando algo que caiba no espaço disponível para nós. Isso vale para as outras formas de arte também: pinturas são criadas para ficarem bonitas nas paredes das galerias de arte assim como a música é escrita para soar bem seja numa pista de dança ou em um teatro (provavelmente não nos dois ao mesmo tempo). Assim, o espaço, a plataforma, e o software ‘criam’ a arte, a música, ou o que quer que seja”.

O músico deixa clara a sua opinião de que isso não é uma coisa tão fria quanto possa parecer. É claro que a emoção está presente. Só porque a forma que o trabalho vai ter é influenciada pelo ambiente, não quer dizer que a criação precisa ser mecânica.

“Nós expressamos nossas emoções, nossas reações a eventos, términos de relacionamentos e tudo mais, mas a maneira com que fazemos isso — a arte disso — é colocá-las dentro de formas prescritas ou espremê-las dentro de novas formas que se encaixam perfeitamente em um contexto emergente”, sintetiza David Byrne.

Vitor Ramil, compositor e cantor gaúcho, também faz referência a essa influência do ambiente sobre a música no seu texto “A estética do Frio”:

“Apesar de toda a diversidade, eu via no Brasil tropical (generalizo assim para me referir ao Brasil excetuando sua porção subtropical, a Região Sul) linguagens, gostos e comportamentos comuns como sua face mais visível. Sua arte, sua expressão popular trazia sempre como pano de fundo o apelo irresistível da rua, onde o múltiplo, o variado, a mistura que a rua evoca ganhavam forma, sendo a música e o ritmo invariavelmente um convite à festa, à dança e à alegria de uma gente expansiva e agregadora”.

É a música respondendo ao contexto que lhe é imposto. É o artista servindo com um espelho que reflete o ambiente, à sua interpretação. Portanto, se a música sofre fortes influências do contexto onde ela nasceu, podemos afirmar que algumas caem bem em determinado ambiente e outras não. A música africana, percussiva e rítmica, se tornaria um caos se tocada em uma catedral, por exemplo.

As catedrais góticas, com suas paredes de pedra, reverberam muito o som fazendo com que uma nota tocada fique no ar por um bom tempo e se torne parte da atmosfera sonora do lugar. Ou seja, o que soa melhor nesses locais é o tipo de música feita na idade média, sem muitas mudanças de tom.

Para muitos esse tipo de som é o que se conhece por um som “espiritual”. Agora, para os africanos, cuja música espiritual é ritmicamente complexa, o som das catedrais em nada se relaciona com espiritualidade, soando apenas meio indefinido e confuso.

Fica claro como um som que pode tocar e emocionar profundamente as pessoas de determinado local, tem também o potencial de irritar e afastar pessoas de outro.

Hoje, talvez mais do que nunca, é preciso ter cuidado com isso.

Nunca foi tão fácil e corriqueiro tirar a música de seus espaços naturais e utilizá-la em outros completamente distantes e diferentes. Pense bem: quais eram as chances de, na idade média, uma tribo africana estar tocando seus tambores em uma catedral gótica? Hoje, basta um celular com internet conectado na caixa de som.

A música é extremamente poderosa.

Sabemos muito bem disso pois, essencialmente, o que fazemos é criar playlists que ajudem o nosso cliente a atingir seus objetivos, seja ele se tornar a maior referência musical possível para o consumidor de determinado nicho, proporcionar uma melhor experiência de compra ou simplesmente vender mais.

Portanto, faz parte do nosso trabalho criar playlists para os mais diversos ambientes comerciais espalhados pelo Brasil. Pensamos e utilizamos a música para criar uma atmosfera completamente nova para as marcas, remetendo — possivelmente — ao espaço onde essa música foi criada. E ao remeter a esse espaço, o som é capaz de incorporar características do seu local de origem ao ambiente das lojas.

Desde que nascemos como empresa, e até antes, como consumidores de música, notamos que a grande maioria das marcas costuma ter um cuidado especial com tudo aquilo que salta aos olhos, mas acaba se esquecendo de algo essencial: os ouvidos.

O som é o nosso segundo sentido mais importante, atrás apenas da visão. Quando ouvimos música, quase todos nós somos afetados por ela. Pode nos incomodar, nos deixar triste, nos encantar, nos animar ou nos fazer chorar. Pode nos fazer dormir, ou até mesmo sair pulando e dançando pela casa toda.

Por isso é tão importante que a música transmita emoção, se conectando com as associações e a identidade da marca, levando em consideração até os mínimos detalhes.

Do contrário, a música pode acabar soando como um acorde fora do tom, uma corda desafinada, uma microfonia que nunca cessa. Ela deixa de ser uma ferramenta de marketing e acaba mais atrapalhando do que ajudando. Atrapalha os clientes, os funcionários e a marca como um todo.

É como falamos anteriormente: um som que pode tocar e emocionar profundamente as pessoas de determinado local, tem também o potencial de irritar e afastar pessoas de outro.

Quando mal utilizada, a música pode até se transformar em um instrumento de tortura. Literalmente. Ela foi uma das ferramentas usadas para torturar os prisioneiros na guerra contra o terror em locais como o Iraque e a Baía de Guantánamo (é sério).

A música a qual os prisioneiros eram submetidos era muitas vezes escolhida por ser o mais culturalmente ofensiva possível para eles, e tocada em um volume absurdamente alto por períodos longos, mas imprevisíveis. Ou seja, os prisioneiros eram privados do controle do sono e também de sua capacidade de encontrar um espaço que o som, desagradável a eles, não os alcançasse.

Mas não precisamos ir tão longe para exemplificar como uma música dissonante e fora do seu contexto pode ser prejudicial. Pensa naquele vendedor de uma loja de roupas, tendo que trabalhar, motivado, durante oito horas por dia, sendo submetido a músicas que simplesmente não conectam com ele. Já dá pra considerar tortura, né?

Concordamos totalmente com David Byrne quando ele afirma que “a música certa, no lugar certo, é o que nos toca”, e entendemos a importância de considerar o contexto e o local de onde cada música vem no nosso processo de curadoria. E uma boa curadoria vem da experiência.

O curador precisa vivenciar aquilo que ele está escolhendo para compor a playlist, entender o peso dos artistas, ter propriedade e o feeling para defender suas escolhas. Essas características só vêm de alguém que está realmente conectado com o recorte musical do projeto em questão.

bananasA forma que encontramos de colocar isso em prática aqui no Bananas foi criando o Music Hub, uma rede de curadores musicais humanos espalhados pelo mundo.

Assim, quando nosso trabalho for criar a trilha sonora para uma loja em Recife, por exemplo, podemos contar com alguém que saiba o que está rolando especificamente por lá, que tenha condições de dar um panorama sobre o consumo musical do lugar. Alguém que viva a cidade de verdade.

Essa é a época de maior abundância musical da história. Temos todas as músicas do mundo guardadas no nosso bolso e nunca foi tão fácil tirar música de seus espaços mais naturais e utilizá-la em outros completamente distantes e diferentes.

É por isso que o trabalho do curador musical deve ser pensar em cada detalhe, como o ambiente e o contexto de onde aquelas músicas vem, por exemplo.

Afinal, não é apenas criar qualquer playlist. É garimpar a música certa para o momento e para o lugar certo, fazendo ela tocar de verdade o coração das pessoas através de playlists criadas e curadas com todo o carinho do mundo.

Eduardo Panozzo é redator Bananas (www.bananas.mus.br). Formado em Publicidade e Propaganda pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), Panozso mistura sua bagagem em comunicação com a experiência adquirida em anos atuando no mercado musical para criar conteúdo de e sobre música. Co-criador do selo Honey Bomb Records e com uma passagem pela Noize Media, hoje é responsável pelo conteúdo do Bananas Music Branding e de algumas bandas independentes que atende através da Buzz Music Content. E-mail: du@bananas.mus.br.

Rafael Achutti é sócio-fundador da Bananas (www.bananas.mus.br). Formado em Relações Públicas, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com pós-graduação em marketing digital pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Achite trabalhou durante 10 anos em agências publicitárias, onde fazia planejamentos estratégicos. Também, atuou durante dois anos no departamento de marketing da Converse All Star. Já morou fora do Brasil, de 2006 a 2007 em Londres, na Inglaterra, e hoje está à frente do Bananas Music Branding. E-mail: achutti@bananas.mus.br.

Artigo encaminhado por Cléa Martins e Patrícia Larsen, da Baião de 3 Comunicação | (GC)

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