Anúncios
News Ticker

Águas de janeiro a março | By Claudio Felisoni de Angelo (IBEVAR E USP)

O mês de janeiro de 2017 registrou um índice de precipitação pluviométrica dos mais altos. As consequências já são conhecidas: alagamentos, desabamentos e trânsito infernal. Circunstâncias semelhantes ou, até mesmo, exatamente as mesmas do início de anos anteriores. Depois das festas, todos se preparam para as chuvas. Não se trata de uma ocorrência com alguma probabilidade. Como dizem os estatísticos, tal situação é considerada como um evento certo.

Felizmente, no caso da economia, embora sem otimismo, pode-se dizer que nos afastamos do evento certo, ou seja, do dilúvio. Do modo como seguíamos, não haveria dúvida de que seríamos tragados pela correnteza produzida pelos desacertos da política econômica vigente no nosso país.

No que diz respeito especificamente ao consumo, ainda que as vendas continuem em um patamar muito abaixo do que já foi apresentado tempos atrás, os fatores que as condicionam dão sinais alvissareiros de uma melhora em um horizonte próximo. Não será, de modo algum, uma recuperação portentosa, como a de alguém que superou as águas que o impeliam para trás e, agora, corre veloz adiante. Infelizmente, não será assim.

De 2015 para 2016, por exemplo, a renda das pessoas com ocupação caiu, aproximadamente, 7%. Também neste mesmo período, a população empregada nas regiões metropolitanas declinou. Comparando-se o terceiro trimestre de 2014 com o mesmo período de 2016, a perda do poder aquisitivo, o desemprego e a insegurança na manutenção dos postos de trabalho contribuíram na redução de 11% para 5% do percentual referente à disponibilidade das famílias para novas compras. Com isso, a capacidade competitiva da economia brasileira, já bastante fragilizada, ficou ainda mais deteriorada.

Para 2017, o mercado prevê que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) situe-se abaixo de 5% este ano, percentual aquém do registrado para 2016, de 6,4% a.a.. Essa previsão de inflação associada à demora da retomada do ritmo de atividades levou a autoridade monetária, no dia 11 de janeiro, a um corte de 0,75 ponto percentual na taxa Selic, redução acima da esperada pela maior parte dos especialistas.

Entretanto, pelas condições recessivas, o nível de emprego ainda continua muito baixo. As estimativas dão conta de que há mais de doze milhões de pessoas desocupadas. Assim como não se resolve as enchentes com barreiras de contenção colocadas nas ruas, também no contexto do mercado de trabalho, se faz necessária a implementação urgente de medidas estruturais, que, embora realmente efetivas, por sua vez, não produzem efeitos significativos imediatos.

De qualquer forma, seja porque as vendas têm sido muito fracas ou porque, aos poucos, a sociedade vai se apropriando dos benefícios das resoluções editadas pelo governo, a verdade é que o ânimo dos indivíduos para compras vai se reestabelecendo ainda que vagarosamente. Frise-se muito vagarosamente.

Trimestralmente, o Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (IBEVAR) aponta a intenção de compra dos indivíduos. O referido índice, que se baseia primordialmente na disposição de bens duráveis, situa-se em um patamar realmente muito baixo. Entretanto, nota-se que, para o trimestre que compreende os meses de janeiro a março de 2017, há uma pequena melhora, da ordem de 2%, em relação ao último trimestre de 2016.

Embora seja muito cedo para se falar em recuperação, não se pode deixar de ver que esta leve tendência traz um bom sinal. E esta percepção é reforçada pela ideia de que, há pouco tempo, seguíamos desgovernados e ritmados pelas águas turbulentas da desordem.

Claudio Felisoni de Angelo é presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (IBEVAR) e Professor da USP.

Anúncios
Sobre gcentenaro (276 artigos)
About Magazine's Publisher
%d blogueiros gostam disto: